22 outubro 2008

MULHERES, HOMENS E XAMPUS


Um sonoro “não” e o polígrafo confirmou: ele disse a verdade. “Não” foi a resposta de Juca Chaves quando Sílvio Santos perguntou se ele trairia sua esposa mesmo que ela não tivesse como descobrir. Não, ele não trairia. Juca Chaves teve o aval do polígrafo, “a máquina da verdade”, e a aclamação velada do público. Fidelidade é assunto careta para alguns, está fora de moda na tevê, mas, aposto, sem precisar de nenhuma pesquisa, que nove entre dez mulheres gostariam de ter um marido fiel. Nove. Chutando pra baixo.

Fora das telas de tevê e das máquinas da verdade, as mulheres ainda querem fidelidade. As mulheres ainda acreditam em promessas de xampus caros e homens baratos. Compramos sonhos, promessas, juras de amor eterno. Dizemos que os homens são todos iguais, mas queremos escolher a dedo. E, na verdade, nós, mulheres é que somos todas iguais. Seguimos um padrão de beleza (ou nos frustramos por não estar no dito modelo). Compramos xampus de noventa e seis reais com o rótulo em francês e uma linguagem inventada que diz: Masquintense. Acreditamos na pró-vitamina, nas ceramidas, na queratina e em todos os outros nomes tirados de traz da orelha dos publicitários como ceraflash, cera liss system, serum-reparador e uma lista sem fim. Acreditamos simplesmente porque queremos acreditar. No fundo, sabemos que rótulos e nomes estranhos em línguas não identificadas são criados por publicitários. Acreditamos em creme-anti celulite, em remédio para emagrecer em duas semanas, em cara-metade ou no amor das nossas vidas. Acreditamos no pra sempre que nunca se acaba, ao contrário do que dizia Renato Russo. Fazemos planos de encontrar a pessoa certa. Casamos com votos de até que a morte nos separe. Exigimos exclusividade, fidelidade, sinceridade, transparência, respeito, cumplicidade. A lista é extensa e, nesse ponto, somos todas iguais.

Confesso que me deu uma pontinha de inveja da esposa do Juca Chaves. Quer declaração de amor maior que essa, em rede nacional? Eu não faria mesmo que minha esposa jamais fosse descobrir. Pra mim, essa é a verdadeira fidelidade. É a fidelidade da intenção. É simplesmente não ter vontade de fazer. Não apenas ser fiel porque alguém vai ficar sabendo, porque respeito meus filhos, porque sou um cara casado. Não. É porque não tenho vontade. Caraleo! É por isso que todas nós, mulheres, esperamos (sentadas). Esperamos que a gente não precise pedir, implorar, obrigar. Ninguém é obrigado a namorar, a casar e a ficar junto. Ficamos porque queremos. Namoramos, juntamos, casamos pra garantir exclusividade. Aliança, coleira ou gps não são garantia de nada e sabemos muito bem disso. Então, a única garantia que temos é a intenção do outro.

Eu sei que muita mulher toma chifre e finge que não vê ou simplesmente não liga e também faz o mesmo. Mas to dizendo de mim e da maioria das mulheres que conheço. A mulher que não quer dividir o cara que tem dentro de casa, a mulher que não quer homem chegando de madrugada com cheiro de perfume barato, a mulher que abomina o estilinho Reginaldo Rossi de ser. Foi-se o tempo em que as mulheres ficavam em casa fazendo tricô enquanto seus maridos boêmios comiam putas no centro da cidade. Hoje, mesmo ainda acreditando em promessas de homens e xampus, somos independentes, somos livres pra fazer nossas próprias escolhas, somos pouco tolerantes e sabemos muito bem o que queremos. Queremos alguém para quem fidelidade não é obrigação, é uma escolha.

06 setembro 2008

O HOMEM IMPERFEITO

Quando eu era adolescente, tudo que eu queria na vida era um cidadão com a cara de um dos New Kids on the Block. Nem precisava cantar Step by Step. E, aquilo, pra mim, bastava. Bastava ter uma carinha bonitinha, um olhar de anjo e pronto. Tinha ali o meu homem perfeito. O cara pra casar. Depois de um tempo, uma carinha bonitinha apenas não era mais suficiente. O cidadão precisava freqüentar uma faculdade e ter um objetivo na vida, pelo menos. Mas vai chegando uma idade em que os quesitos são tantos que fica cada vez mais difícil encontrar o homem perfeito. O candidato precisa ter: uma carinha bonitinha, um corpinho de passeio, ser um “rapaz de família”, como diria minha mãe, ser um “moço trabalhador”, como diria meu avô. Não pode ser mulherengo, nem, um dia, ter sido galinha (sim, isso está na genética e, portanto, esse gene maldito vai acompanhá-lo por toda vida, ainda que pareça estar adormecido, melhor não arriscar). Homens pegadores dão náusea em mulheres maduras. E a lista de quesitos aumenta em progressão geométrica. O homem perfeito de quando eu tinha 18 anos passou a ser um traste quando fiz 28.

Mas a saga de encontrar o homem perfeito não acabou com meus vinte e poucos anos como acontece com toda cidadã criada no interior. Não me casei com o primeiro traste que apareceu só pra convidar as tias-velhas pro casamento. Só pra dizer pras amigas que consegui casar antes delas. É, pensa que não? Tem muita mulher assim. Acho isso medieval. Da idade da Pedra. Sei lá, não entendo nada de História. Mas acho bem antigo, se quer saber. Acredito em encontrar a pessoa certa. A tampa da panela. Mas não me convence a idéia do ter-que-casar. Não vou ter filhos. Logo, meu relógio biológico não está fazendo a contagem regressiva “case logo antes que seja tarde demais pra ter um filho”. Não tenho pressa. Tenho objetivo.

Talvez então eu tenha escolhido ficar com você por pura vaidade. Sou tão vaidosa que sempre acreditei que eu seria a única mulher no planeta a encontrar o homem perfeito. E, pra confirmar minha teoria, encontrei você e decidi que não te perco de vista nunca mais. Você vai me dizer que não é perfeito. Concordo. Não é. Mas você é perfeito pra mim. Você é o chinelo velho pro meu pé torto.

Descobri que todos os quesitos foram pro saco quando encontrei você. Você está longe de ser o homem perfeito (a essa altura, já descobri que esse “homem perfeito” não existe, como também não existe o príncipe encantado e, muito menos o tal do cavalo branco). Mas eu também não sou a Cinderela. Já beijei muito sapo, mas sabia que nenhum deles ia virar príncipe depois. Descobri que o homem perfeito nem sempre se parece com o galã da tv ou da bandinha pop do momento. O homem perfeito pode ter uma barriguinha de chope, um ou outro fio de cabelo branco que insiste em aparecer, alguns problemas gástricos e uma dúvida gigante em relação ao futuro. O homem perfeito não precisa saber tudo, nem ter solução pra todos meus problemas. O homem perfeito é aquele que passa uma semana me ajudando a encontrar uma calopsita albina fêmea mansa com mais de dois meses de idade. O homem perfeito é aquele que deixa eu cutucar perebas invisíveis no maxilar dele. O homem perfeito é aquele que se preocupa se eu tomei café-da-manhã e almocei direitinho. O homem perfeito é aquele que me empresta sua camisa branca pra eu dormir na casa dele. O homem perfeito é aquele que deixa escova de dente, chinelo e pijamas na minha casa. O homem perfeito é aquele que passa uma semana com diarréia e insiste em achar que o problema é na garganta. O homem perfeito é assim. Imperfeito. Exatamente como você é.

28 agosto 2008

VOCÊ TEM MSN?

Até entendo que a internet queira modernizar os relacionamentos. Entendo também que toda essa modernidade mudou a forma da gente conhecer novas pessoas e de se relacionar com as que já conhecemos. É lindo. Com um clique, você acha o cara dos seus sonhos, com um clique você arruma um namorado, com um clique você bloqueia malas, ex-namorados e inconvenientes. Tudo muito prático e sem dor de cabeça. Tudo num clique. Ninguém mais precisa dar fora em ninguém, ficar se justificando ou arrumando desculpa pra sumir da vida de ninguém. Nem pra aparecer nela.

A pergunta “Você tem MSN?” não é uma frase tão inocente quanto pode parecer. É muito mais moderna do que a antiga “me dá seu telefone?”. A sentença “Me dá seu MSN” é quase uma sentença jurídica a ser cumprida. É um passaporte velado pra vida da outra pessoa. É um “vamos manter contato” ou “a gente pode se falar sem que sua namorada fique sabendo” ou ainda “a gente não se pegou ainda, mas a gente vai se falando que uma hora rola”. Pra alegria dos solteiros e pra infelicidade dos comprometidos.

E o tal do Orkut?! Gente! Me explica esses caras que mal falam com você na rua e, no orkut, vêm todo íntimo oooooooooi, lindaaaaaaaaaa. Como assim, cara-pálida??? De onde surgiu essa pseudo-intimidade? No orkut todos são suuuuuuuuuuuuuper amigos de balada, todos têm fotos de viagens inesquecíveis pra Europa ou pra Matão, todo mundo ama todo mundo pra sempre (até que o orkut os separe e a pessoa deleta o perfil e depois volta como se nada tivesse acontecido com o status de: solteiro).

Quer saber?! Acredito que a internet um dia vai encher nosso saco. E acho que não demora muito, não. Eu já ando de saco cheio desse faz-de-conta. Dessa realidade virtual nada parecida com a real. Da pseudo-liberdade, pseudo-intimidade, pseudo-realidade. Na vida real, tenho certeza que a namorada dos caras que xavecam as moças no MSN iam ficar putas da vida. Na vida real, as pessoas que você mal cumprimenta não têm tanta liberdade assim pra te chamar de linda. Na vida real, as pessoas comuns não se falam todo-dia-toda-hora. Na vida real, as pessoas nem são tão bonitas assim quanto suas fotos photoshopadas de orkut e MSN. Na real, prefiro a vida real.

É muito lindo namorar pela internet, conhecer gente nova e bater-papo com os amigos. Mas ainda não será dessa vez que a vida de carne e osso vai ser deixada de lado. Nada substitui o toque, o cheiro, a pele. Nada como o futebol com os amigos, o calor, o suor e a cerveja gelada. Nada como andar de moto sentindo a liberdade batendo na cara. Nada como sentir o abraço, a respiração, e olhar nos olhos de quem a gente ama. Nada como bater perna no shopping com as amigas sábado à tarde, ver o pôr-do-sol na praia e amanhecer na rua depois de uma balada daquelas. Nada como o gosto da sobremesa e do beijo. Nada como assistir tv com o namorado domingo à noite debaixo do edredom. Nada como um lanche despretensioso no meio da tarde pra bater papo sem ter que digitar. Nada como o tom da voz pra dizer que ama. Nada como viajar pra praia e lembrar que existe vida após a internet. Nada como desligar o computador no final do dia e cair na real. Nada como a vida real. Tudo por uma vida mais real.

03 agosto 2008

NÃO DIGA NADA

Eu sei que não sou um exemplo de bom comportamento nem tenho no currículo uma coleção de finais felizes. Eu sei que eu meto os pés pelas mãos na maioria das vezes. Eu sei que quando se trata de relacionamento, eu tenho ciúme, eu sou insegura, eu faço cena. Eu sei de tudo isso e, acredite, eu tento melhorar (apesar de não estar funcionando ainda!). Mas o que eu mais sei é que a gente só aprende dando cabeçada por aí.

Então por que é que as pessoas se acham capacitadas em dar palpites na vida das outras? Alguém me explica? Alguém me explica porque é que aquela amiga que nenhum homem suporta ela por mais de quinze dias pensa que sabe o que é melhor pro seu namoro? Ou por que aquela pessoa que já foi infiel nos seus relacionamentos quer te convencer de que existe fidelidade? Por que a gente sempre tem a fórmula mágica pra vida dos outros? Por que alguém sempre sabe nos dizer exatamente o que fazer, mas nunca faz nada direito? Faça o que eu digo, não faça o que eu faço? É isso?

Você ta fazendo errado! Isso não ta certo! Não pode ser assim! Faça de tal jeito! Espera aí. Quem perguntou? Isso mesmo. Ninguém perguntou. É só um hábito irritante que as pessoas – em especial as mulheres – têm. Ninguém ta pedindo conselho ou colocando a vida aberta para debate. A gente não está interessado em fazer como a melhor amiga faz só porque a experiência dela deu certo. Se fosse assim, a gente ouvia conselho de mãe, de vó, de tia velha e casava virgem, não é?! Não. A gente faz o que a nossa cabeça manda e não o que as pessoas nos dizem. A gente quebra a cara. Sofre. Leva pé-na-bunda. Se decepciona com todo tipo de gente. Mas no final, a gente aprende alguma coisa que não aprenderia se tivesse feito tudo certo.

Tudo certo demais me cansa. Muito Pollyanna pro meu gosto (aliás, que moral tem alguém cujo nome repete doze vezes a mesma letra e usa y no lugar da letra i pra parecer sofisticado?). Que graça tem alguém que machuca o dedo e não grita um palavrão? Que graça teria se a gente conseguisse tudo que quer? Se fizesse tudo conforme o manual. Se só abrisse o presente de Natal depois da meia-noite. Se tudo saísse conforme planejado. Se a gente não tivesse ciúme. Se a gente soubesse exatamente como fazer tudo. Ou se tivesse alguém pra nos dizer sempre como fazer. Não teria graça nenhuma.

Não haveria inspiração pras duplas sertanejas, pros noticiários, pros blogueiros, pra Sônia Abrão ou pra Márcia Goldsmith. Não haveria dor ou poesia. Os dias chuvosos não fariam o menor sentido. O mundo não teria graça se tudo fosse perfeito e se todo mundo tivesse a resposta pro problema alheio antes mesmo do alheio ensaiar querer um conselho. Por isso, detesto que alguém dê palpite na minha vida. Deixe que eu caminhe com minhas próprias pernas curtas dando meus passos pequenos. Um de cada vez. Deixe que eu caia, levante e comece de novo se precisar. Mas, por favor, me deixe fazer sozinha. Do meu jeito errado. Se eu vou me machucar mais do que aprender alguma lição, deixe que eu descubra no final. E, no final, se der tudo errado, quero ver quem vai voltar pra ficar do meu lado.

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Preciso compartilhar uma coisa com vocês! To eu em São Paulo (!!!) quando surge uma pessoa fooofa:
-você é a Brena?
-sou.
-eu leio seu blog!!!

Êeeee!!!

Aline, fofa, obrigada demais. Me manda um email porque não consegui achar seu blog. Beijos a todos.

01 julho 2008

O ESTRANHO MUNDO DE MIM MESMA

O mundo não combina comigo. Por mais adolescente que possa soar pra quem lê, pra mim só isso faz algum sentido. Foi só essa explicação meio infantil que encontrei. Não tenho muitos amigos, não faço o que gosto, nunca achei um emprego que fosse a minha cara. Só faço as escolhas erradas, nunca acertei um número na mega-sena e não posso doar sangue. Tenho tendência a emagrecer e ganho músculos com facilidade. Meu melhor amigo é um passarinho com topete. As únicas pessoas em quem eu confio são meu pai e minha mãe, as únicas que dariam sua vida por mim e me apóiam em qualquer situação. Com certeza, eu não pertenço a este mundo.

Sempre quis ser um exemplo pras pessoas. Criei uma super-heroína que nunca existiu na vida real. Sempre procurei mostrar pras pessoas o lado bom das coisas que eu mesma nunca consegui ver. Sempre disse “vai passar” quando parecia que ia ser eterno o sofrimento e não havia sequer um raio de luz no final do túnel. Sempre passei de ano direto na época da escola. Nunca coloquei um cigarro na boca, nunca experimentei nenhum tipo de droga, nunca bebi além da conta. Pago minhas contas antes do vencimento. Cumpro minhas obrigações e exijo meus direitos. Nunca admiti que me julgassem sem me conhecer. Nunca admiti que desconfiassem do meu caráter ou da minha idoneidade. Nunca usei meu corpo pra distrair os homens. Sempre agi de boa fé. Sempre quis fazer algo na vida que justificasse minha existência estúpida.

Mas, às vezes, acho que minha missão aqui já foi cumprida. Não há nada mais que eu possa fazer pelas pessoas, pelo mundo ou por mim mesma. Já cansei de me decepcionar faz tempo. Não que eu tenha desistido. É que não tenho mais forças. Não consigo mais dizer pras pessoas que vai dar tudo certo. Não, eu não sei se vai dar certo. Não consigo dizer “vai passar”, porque eu sei que passa, mas às vezes demora muito mais tempo do que a gente agüenta e, às vezes, a gente precisa ficar boa já. Não consigo achar que é só uma fase, pois a “fase” pode ser uma vida toda. Não consigo ser otimista depois de tanto chão e tanta estrada de terra. Meus vinte e poucos anos já passaram e levaram com eles minha visão romântica da vida. Não sou mais aquela menina de onze anos de idade que imitava a Xuxa nas escolas públicas, cantando “Arco-íris” e pedindo pras crianças dizerem não às drogas, mesmo imaginando na minha cabeça ingênua que droga era coisa só de bandido.

Hoje, sinto que eu poderia ter feito tudo diferente pra me sentir mais inteirada aqui. Poderia ter passado por cima de algumas pessoas, poderia ter deixado alguns amigos na mão, poderia não ter sido tão honesta, poderia ter mentido pra algumas pessoas, poderia ter mandado outras à merda. Hoje, percebo que, mesmo fazendo meu melhor, não sou a filha, a amiga ou a namorada dos sonhos de ninguém. Simplesmente por achar que o mundo não é do jeito que deveria ser, por não acreditar em contos-de-fadas, por não aceitar migalhas. Por achar ridículas as atitudes do tipo “todo mundo faz, eu também tenho que fazer”. Gente que usa isso como uma desculpa imbecil “todo mundo faz”. Por isso nunca dei certo. Porque nunca tomei as idiotices alheias como minhas. Não tenho nada a ver com “todo mundo”. Não aceito a atitude de “todo mundo” e, hoje, desejo que todo mundo se dane. Hoje, vai ser assim: só eu e meu mundo.

12 junho 2008

AMO.

Seria muito fácil escrever um texto de dia dos namorados pra você não fosse o fato de que você resolveu escrever um texto pra mim também. Assim não vale. Você faz isso muito melhor do que eu e sabe disso. É o seu dom. É o que você sabe fazer, como você mesmo diz. Agora fudeu. Agora vou ter que procurar palavras bonitas, tentar não rimar cão com chão e evitar exclamação. Coisa de publicitário!

Quando eu lia seus textos e tentava entender o que você escrevia, antes mesmo da gente se conhecer, eu já sabia que não ia ser fácil. Quando eu te bloqueava por um mês inteiro no MSN, você nem calculava que eu ia dar muito mais trabalho do que você podia imaginar. É. O começo não foi fácil mesmo. Eu achava que fosse namorar você e continuar solteira. Você de lá e eu de cá. Tudo certo. Achei que dava pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo, afinal não era pra ser nada sério mesmo. Mas isso era só o começo.

Isso foi antes de eu descobrir que você organiza as latinhas de refrigerante em linha (!!!) na geladeira. Que você é tão organizado que paga previdência privada e alinha também as almofadas em cima da cama. Que arruma a própria cama. Que arruma tudo que eu bagunço na sua vida. Que você lava as roupas coloridas separadas das brancas e separadas das escuras. Isso foi antes de eu descobrir que eu ia ser só sua. Isso foi antes de eu te conhecer. Isso foi antes de eu me apaixonar. Agora fudeu. Agora eu bagunço sua cama e você não liga. Eu deixo todas as luzes da casa acesa e você vem atrás apagando. Eu faço você assistir Sex and the City comigo - na primeira fila porque eu esqueci os óculos em casa. E você vai. Você faz tudo com o maior prazer. Faz todas as minhas vontades. Me mima. Cuida de mim. Você se preocupa se eu vou arrumar logo um emprego. Você quer me levar ao médico cada vez que eu dou um espirro diferente do normal. Você quer me levar sempre aos melhores lugares. Você faz questão que eu esteja linda. Mais porque sabe que eu me preocupo com a aparência do que por você mesmo. Por você eu poderia acordar e dormir descabelada. Você consegue me achar linda de manhã cedo e fazer eu me sentir a Gisele Bundchen. Você diz que me ama vinte vezes por dia e me faz querer passar o resto dos meus dias com você. Faz eu esquecer que era pra escrever um português bonito, sem palavrões e com tom de poesia.

Agora já era. Ta tudo dominado. Você quer confiscar minha calça jeans velha que marca a bunda, estica o olho cada vez que apita uma mensagem no meu celular e liga de dez em dez minutos toda vez que eu saio de casa depois das nove da noite. E ainda reclama que eu tenho ciúme. Reclama dos meus achismos. Reclama do decote. Reclama da saudade. Reclama do tempo. Reclama de tudo só pra exercitar. Exercitar a chatura. A chatura que eu amo.

Não acredito em datas comerciais. Pra mim, isso é um desculpa sem contexto pras pessoas gastarem dinheiro. E a gente, que deu pra entender de palavras, gasta texto. Eu aqui virando a noite pra colocar no papel meia dúzia de frases legais e você já no décimo sonho porque em meia hora escreve um texto que eu não escreveria nem se passasse todas as noites da minha vida em claro. Por isso prefiro passá-las com você. Pra ver se eu pego um pouco do seu talento pra mim. Pra colar uma linha de cada página que você escreve. Pra ficar admirando suas palavras. Ou simplesmente pra ficar com você mesmo. Pro resto das minhas noites.

10 maio 2008

MEUS HERÓIS MORRERAM DE OVERDOSE

Ronaldo, o jogador-fenônemo-pegador pegou tanto que resolveu mudar de time pra ampliar o campo de atuação. Britney, a namoradinha da América, depois de dar pra meia América, virou alcoólatra, perdeu os filhos e vive se internando nas clínicas de reabilitação. Paris-faz-nada-Hilton ganha a vida deixando “vazar” seus vídeos eróticos na Internet e fazendo cara de “vem me comer” pros fotógrafos de plantão. E agora mais esta: a Mulher Baleia, ops, Mulher Melancia que... ham... faz o que mesmo? Ah, claro! Mostra a bunda na Tv! Sim, esses são nossos ídolos.

E não, eles não se tornaram loucos, alcoólatras, drogados, depravados, fúteis e causadores de escândalos porque são nossos ídolos. Pelo contrário. Eles se tornaram nossos ídolos justamente porque são loucos, alcoólatras, drogados, depravados, fúteis e causadores de escândalos. Alguém se interessa pela vida ou pela carreira de Cláudia Raia? Mãe, atriz, dançarina, cantora. Alguém assistiria na Luciana Gimenez um especial com alguém que tivesse talento ao invés de 121cm de bunda? Que tivesse voz ao invés de 500ml de silicone? Acho pouco provável.

Isso porque a tosqueira é inerente ao ser humano. Explico: o ser humano é tosco. No sentido exato da palavra. Grosseiro. Rude. Sem lapidação ou polimento. Li uma vez que homem gosta de ver mulher pelada, mesmo que seja índia velha na matéria do Fantástico. Achei isso de suma elegância e desenvolvimento intelectual. Coitado de Darwin! Deve estar se revirando no caixão uma hora dessa. Cadê a teoria da evolução?

A gente gosta de ver o pai que joga criança pela janela. A gente gosta de ver a puta que derruba governador. A gente gosta de ver a atriz bonitona que chifra namorado galã. A gente gosta de ver as mulheres que mostram a calcinha “sem querer” (ou a falta dela, na maioria das vezes). A gente gosta de ver a Britney ir parar na delegacia bêbada pela cinquentésima vez. A gente gosta de ver que a Paris Hilton nunca fez nada útil na vida e é ídolo. Que a Mulher Elefante, ops, Melanciiiiiia foi despejada de casa (tadinha!). Que o Ronaldo é humano e versátil (uh!). É do ser humano isso. A tosqueira está em você e está em mim (que sei disso tudo que está escrito aí em cima, ainda que nada disso vá mudar minha vidinha igualmente tosca).

A gente não tem exemplo. Nossos heróis são toscos. Nossos heróis são os Marcelos D2 que acendem um baseado bem na nossa cara. São os Lulas que não sabem de nada. São as Cicarellis que dão na praia. São as mulheres-melancia que dançam “créu” (vergonha alheia!). São os 50Cents que valem exatamente meio dólar. São os Snoop Doggs que colocam a mulher como objeto em seus clipes. São os travestis que vão pra Luciana Gimenez. São os jogadores que gostam de travestis e de putas. São as putas. Fomos nós que os elegemos nossos ídolos. Heróis. Nossos exemplos. Porque eles são a nossa cara. São nosso alterego. O reflexo daquilo que a gente admira no outro. O retrato mais fiel da nossa própria tosqueira.

06 abril 2008

PALAVRAS AO LÉU

Diz o ditado que quem tem telhado de vidro não deve atirar pedra. Então tragam logo meu estilingue. Meu telhado é de cristal. Legítimo. Límpido. Transparente. Podem revirar meu passado, meu e-mail, agenda ou celular. Não vão encontrar nada. Não escondo nada. Não guardo mágoas, cartas, memórias. Não sei da vida de quem passou pela minha e não quis ficar. Não tenho rabo preso. Nem, tão pouco, relacionamentos mal resolvidos. Não tenho outras intenções que não as que eu digo.

Tenho cara de menina. Não tenho tamanho de gente grande. Mas não sou criança. Assumo meus erros. Assumo responsabilidades. Entendo erros. Aceito desculpa. Mas repito: não sou criança. Se errou, assuma. Pediu desculpa? Faça por merecer o perdão. Se existe algo pelo qual eu prezo são os sentimentos. Meus e dos outros. A palavra dita não volta atrás. Então, não diga coisas só pra ofender alguém que você ama. Não magoe ninguém de graça. Não magoe mesmo se achar que esse alguém merece.

Aprendi que uma coisa (mal) dita não tem nada que apague. A palavra proferida é um tiro na alma. Pode matar um sentimento. Pode acabar com o amor de alguém. Pode destruir uma amizade. Pode arruinar uma família. Uma palavra pode valer mais do que mil gestos. Pode machucar mais do que um tapa na cara. Pode separar mais do que a distância. Com palavras, eu magoei muita gente que eu amo. Eu perdi gente que eu amei. Mas foi só quando eu tomei uma surra de palavras na cara que eu aprendi. Quando um ex-namorado disse pra mim “some da minha vida”, eu respondi “vou sumir sim e você nunca mais vai ter notícia minha”. E foi o que fiz. Cumpri o que disse. As palavras dele se tornaram uma profecia que se realizou. E, desde então, meço o que eu digo. A palavra dita não tem volta. E, muitas vezes, fazem um relacionamento não ter volta também.

Eu jogo limpo. Falo o que penso. Mas existem mil maneiras de se dizer a mesma coisa. Existem mil maneiras de se dizer alguma coisa sem machucar alguém. Acredito que não é à toa que eu tenho uma certa habilidade com as palavras. É pra amenizar minha impulsividade. Imagino o estrago que seria uma pessoa sem freios na língua e com palavras ao léu. Se faço tudo errado, pelo menos, falo certo.

E, pra mim, o certo é ser livre. Sou livre quando sigo o que sinto. Sou livre quando amo de verdade. Sou livre quando respeito aquele que amo. Sou livre quando faço o que quero. Sou livre quando digo a verdade. Porque só a verdade liberta. Só a verdade me permite olhar nos olhos de alguém e dizer o que tem que ser dito. Só a verdade me permite dormir todas as noites em paz com a minha consciência. Só a verdade permite que minha vida seja um livro aberto. Só a verdade me faz agir com transparência. Só a verdade me deixa tão livre, tão eu. Só a verdade me deixa tão presa a meus princípios. E só com princípios tão claros posso dizer o que sou: transparente.

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Amores leitores fofos, me desculpem por sumir de vez em quando. Quando eu sumo é porque tá tudo liiindo, vocês sabem, né?!
Beijos

16 março 2008

RAZÃO PRA SER. EMOÇÃO PRA QUE?

Vi na TV, recentemente, um psicólogo dizendo que a mulher demora mais pra terminar um relacionamento, mas quando faz, é porque já tentou de tudo. Já deu chance, já perdoou, já pediu pra mudar, já mudou, já fez e aconteceu e nada mudou. Já os homens têm mais facilidade em jogar tudo pro alto. Porém, na maioria das vezes, eles voltam atrás. Se isso é verdade, eu não sei, mas eu, particularmente, ando mais adepta da razão.

Nós, mulheres, somos mais tolerantes. A gente fica em casa enquanto o namorado vai beber com os amigos. A gente fica em casa enquanto ele vai jogar futebol. A gente fica em casa enquanto ele viaja a trabalho. Mas, enquanto a gente ta em casa, a cabeça pensa, dá voltas, procura uma saída. A cabeça pesa. A cabeça põe na balança os prós e os contras. Enquanto ele grita, a gente fica muda. E pensa. Dizem que a mulher é mais emoção, mas, me desculpem. Quando decidimos algo importante na nossa vida, somos só razão.

E a razão demora. Pensa. Repensa. Pesa. Calcula. Avalia. A razão dá chance. Acredita na mudança. A razão faz a gente mudar. A emoção é toda atrapalhada. A emoção sai batendo a porta. A emoção grita. Xinga. Esperneia. Faz pirraça. Chora. A emoção põe tudo a perder no momento errado. Mulher é muito assim. Emoção pura ao longo do caminho. Mas a gente sabe que, quando a decisão é séria, a coisa precisa ser pensada. E a gente não põe tudo a perder a toa.

Quando damos a cartada final é porque não há mais nada a perder. A gente já olhou por todos os ângulos, já fez os cálculos de todas as probabilidades disso dar certo e concluiu que não dá. A gente vai sentir falta. O domingo à noite vai ser foda. Vai doer pensar que ele vai ser de outra. Mas tudo isso a gente já pensou antes. Nada disso vai ser mais foda do que continuar no relacionamento.

Relacionamentos são pra deixar a gente mais feliz. Estou falando de rolo, namoro, casamento. Se veio mais um pra ficar com a gente, é pra somar. Se ta dando dor de cabeça, se ta pesado, se ta sofrido, se ta fazendo mal, melhor sem ele. Um namorado me disse, certa vez, que não estava feliz comigo. Achei justo que terminássemos. A última coisa que quero, no mundo, é fazer alguém infeliz. Se já não é fácil agüentar a própria infelicidade, agüentar a dos outros é quase impossível.

Já fui só emoção. Daquele tipo de mulher que desliga telefone na cara, depois liga de novo (a doida, né?!). Que termina namoro na hora que ta irritada. Que vai embora da casa do namorado carregando a mala. Que procura pra voltar, em prantos. Que fala, grita, xinga e chora ao mesmo tempo. Nada que uma dose cavalar de razão e cabeça fria não resolvam. Hoje, deixo as coisas pra resolver depois. De cabeça fria, a gente pensa melhor e corre menos risco de fazer merda. Hoje, depois de ter dito muita coisa que magoou muita gente e ter ouvido muita coisa que me magoou, eu penso antes de falar. Eu respiro fundo e conto até cem mil se precisar. A palavra dita não tem volta. A ferida que ela causa fica pra sempre. Então, hoje, prefiro ser mais razão e menos emoção. Prefiro demorar pra tomar decisões, mas fazer a coisa certa.

29 fevereiro 2008

AZAR NO JOGO

Hoje descobri porque eu não tenho sorte no jogo. Porque toda vez que eu jogo, eu penso que vou usar o dinheiro pra ajudar muita gente de quem eu gosto. Só de carro, acho que seriam uns 20. Queria retribuir muita coisa boa que já fizeram pra mim. Pagar muitas viagens, viajar e levar muita gente comigo. Mas, segundo uma amiga minha, jogo é coisa do capeta, então, quando a gente joga, a gente tem que pensar: se eu ganhar, eu vou fazer mal pra fulano, fulano e fulano. Pra poder dar certo. Por isso que eu nunca ganho nada. Do fundo do meu coração que eu queria pensar qualquer coisa do tipo, mas simplesmente não consigo.

Queria ter recebido outro tipo de educação da minha família. Meus valores, minhas crenças, meus objetivos nunca me empurraram pra frente. Sempre fui tão correta com todo mundo, sempre fiz o bem, sempre fui sincera, sempre fui educada, sempre amei demais, sempre agi de boa fé, sempre fui fiel, sempre paguei minhas contas em dia. E o que eu tenho recebido de volta não se parece em nada com o que eu tenho feito. E pior: o que tenho visto é o mal prevalecer. Quem se dá bem são as pessoas que agem de má fé com as outras. São as vagabundas. As interesseiras. Os covardes. Os de alma pequena.

Quem tem se dado bem é sempre aquele que usa o outro, que engana, que abusa da boa vontade das pessoas. Quem tem se dado bem é quem pega dinheiro emprestado e não paga, quem sai sem pagar a conta, quem usa o “jeitinho brasileiro”. São os políticos corruptos. São os que sonegam impostos. São os que cobram juros abusivos. São os que fazem falsas promessas milagrosas. Os que vendem produtos pra emagrecer que não funcionam. São os que falsificam remédios, bolsas e tênis. São aqueles que usam a força da publicidade pra vender sonhos distantes. Pra vender terreno na lua. São as igrejas que usam o nome de deus pra roubar os pobres fiéis. São os patrões que não pagam os direitos dos empregados. São os maus empregados.

Por isso, queria fazer tudo diferente. Queria ser uma pessoa pior. Queria não chorar quando magôo alguém. Queria não me culpar quando erro. Queria ligar o foda-se no talo. Queria que eu quisesse que alguém se fudesse. Mas não desejo mal a ninguém. Não consigo. Queria não acreditar quando a Madonna fala, cabalisticamente, que tudo que a gente faz volta pra gente. Mas eu acredito. Não porque é minha musa falando, mas porque eu acho mesmo que o que a gente faz volta pra gente. Algumas vezes, volta em dobro. Queria que Newton nunca tivesse inventado a terceira lei pra confirmar meus pensamentos: a toda ação, corresponde uma reação, de igual força e intensidade, em sentido contrário (basicamente, é isso). Mas, mesmo eu acreditando em Newton, Madonna, Cabala, ou seja lá o que for, nada de bom tem voltado pra mim ou pra quem quer ser de bem. O bandido tem se saído melhor que o mocinho. O mal ta vencendo o bem. O país, as pessoas, os amores e o orkut só confirmam minha teoria de que bonzinho só se fode. De que eu estou perdendo meu tempo e minha chance de ficar milionária por ser uma cidadã de bem. Hoje, joguei na mega-sena pra tentar a sorte no jogo. Mas, se jogo for coisa do capeta mesmo, vou precisar treinar mais um pouco.

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Amores, sei que deveria dar bons exemplos, mas, às vezes, não consigo. Às vezes também, meu lado cético fala mais alto. Ando assim. Descrente.
Vai passar. Beijocas.

13 fevereiro 2008

SOBRE ANJOS


Eu sempre soube que nenhuma pessoa, nenhum ser humano neste mundo é só bom ou só mau. Todo mundo tem seus dois lados: o bem e o mal. Ainda que esses dois se confundam ou um deles predomine. Mas uma pessoa com o nome tão diferente não poderia mesmo ser igual a nenhuma outra. Não poderia se encaixar em nenhuma regra, seguir nenhum padrão. Minha amiga chamada Kédima.

Deve ser porque Kédima não é um ser humano como a gente. Kédima é anjo. A pessoa com o maior coração que já conheci em toda minha vida. Com a alma mais pura. Com o sentimento mais sincero. Com as palavras mais doces. A pessoa que já me levou pras festas e já me levou pro hospital. Minha médica. Minha plantonista. Minha emergência. Meu socorro. Se não fosse por ela ser mais nova que eu, poderia dizer que minha amiga é uma mãe pra mim.

Minha amiga mais linda. Mais alta. Mais magra. Mais sarada. Mais chique. Mais fashion. Mais poderosa. Minha inspiração. Minha companhia. Minha conselheira. Minha vizinha. Meu apoio. Meu sorriso. Meu conforto. Minha carne e unha. Minha cutícula! Kédima é essa cidadã de alma aberta. De princípios claros. De valores verdadeiros.

Amiga que conheceu a Brena forte dando bolsada na balada e conheceu a Brena esmaecida tomando soro no hospital de madrugada (e ainda saiu pagando estacionamento... ai, que vergonha!). Amiga tão menina e tão madura. Tão nova e tão sábia. Tão doce e tão segura. Forte por dentro e por fora. Que me dá forças quando eu preciso e poderia bater em alguém se eu precisasse.

Kédima, amiga, cutícula. Você é uma pessoa especial. Pra mim e pra todas as pessoas que tiveram a sorte de te conhecer nesse mundo. Tão boa que não consegue ver maldade no mundo e nas pessoas. Tão boa que eu nem sei se eu mereço sua amizade. Deus te colocou no meu caminho pra eu aprender a ser uma pessoa melhor a cada dia. Pra eu ver que esse mundo ainda tem jeito. Que ainda existe gente com tamanho caráter, humildade, presteza, bondade, educação, gentileza. Pra eu ver que o dicionário é pequeno pra eu achar tanto adjetivo quanto você merece. Porque você é só boa. Amo você, amiga. Você é um anjo neste mundo estranho.

08 fevereiro 2008

NINGUÉM DISSE QUE IA SER FÁCIL


Quando alguém disser pra você que quer só seu lado bom, corra pra bem longe. É muito fácil gostar de alguém “perfeito”. É muito simples querer alguém só pra festa. Muito cômodo estar com alguém só na hora do bem-bom. Mas, na hora que o calo aperta, é que você conhece aquele com quem você faz planos pra vida.

Você divide a mesma cama com alguém, traça roteiro de viagem, viaja, torra o dinheiro - que você não tem - indo e vindo, gasta seu tempo, sua juventude, suas forças. Você supera coisas que jamais pensou que fosse suportar. Você finge que não vê outras tantas e, lá pelas tantas, você vê que foi tudo em vão. Como que alguém que só te quer rindo, indo, dançando, bebendo, cantando, beijando, amando pode te amar de verdade? Cadê o “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza” e aquela história toda? Cadê o “até que a morte nos separe”?

Na minha cabecinha inocente, duas pessoas que se amam deveriam formar um casal apaixonado. Daqueles que a gente vê em filme. Com direito a corridinha na beira do mar de mãos dadas e tudo mais. Com beijo romântico no pôr-do-sol. Na minha imaginação adolescente, o amor nunca perde o viço. Era só isso que eu pedia pra mim. Flores, frases, vinhos, praias, corações, edredons. Mas quem mandou eu acreditar nos filmes, nos livros, nos textos, nas palavras, nas promessas?

Não entendo de morar junto, não entendo de casamento, não entendo de uma vida a dois, muito menos de amor. Mas o amor não deve ser só receber sem se dar. Se fosse, estaria à venda. E não está. Porque o outro lado não precisa de dinheiro pra amar. Só precisa amar de volta com a mesma intensidade. E o amor precisa de intensidade. De intenção. O amor não é querer o fácil só porque lhe convém.

Talvez seja por isso que certos tipos de homens apreciam prostitutas. Amor enlatado. Descartável. Pra viagem. Só na hora que convier. Sexo sem tpm. Vapt-vupt. Au revoir. Enquanto o dinheiro der. Sem rachar conta de água, de luz, de telefone, de condomínio, de iptu e de restaurante. Sem dor de cabeça. Até que a próxima noite os separe. Na alegria, sem tristeza. Na saúde, com doença.

Se o amor tem um preço, é este: amar vinte quatro horas por dia, sete dias por semana. Amar cem por cento. Amar por inteiro. Infinito. Sem data de validade ou prazo pra expirar. Dar sem garantias de receber nada em troca. Apostar todas as suas fichas. Ser todo. Se o amor tem um preço, um jeito, uma forma, uma fórmula. Se o amor tem jeito. Eu não sei. Eu não sou fácil, não me vendo, não aceito migalhas, não gosto de metades. Sou um império do bem e do mal. Sou erótica, sou neurótica. Sou boa, sou má. Sou biscoito de polvilho. Açúcar, sal, mousse de maracujá. Só não sou um brinquedinho. Que alguém joga no canto do quarto quando não quer mais brincar. Sou um pacote. Uma mala. Sou difícil de carregar.

30 janeiro 2008

CRIMES MORAIS

Alguém entra na sua casa, rouba suas coisas, agride você. Esse alguém cometeu, de uma só vez, vários crimes. Previstos em vários artigos da Constituição. Alguém entra na sua vida, rouba seu tempo, destrói sua confiança, agride sua auto-estima, estilhaça o pouco que resta da sua confiança no amor. E sai ileso. Mas não seria esse o pior crime que alguém pode cometer contra outra pessoa? Agressão só é penalizada quando alguém encosta a mão em alguém? Como se pune quem causa uma ferida que não está exposta?

Acredito que tomar uma surra de um boxeador deve doer menos do que ser traído. A dor física passa em algumas horas ou, em casos mais graves, alguns dias. Pra dor física, existe remédio. Pras feridas, existe curativo. Mas quem cura a dor de um coração destruído? Como se cura a dor de uma confiança perdida? O que fazer com as feridas cravadas na alma de alguém que sai na rua descrente do mundo? Como penalizar o agressor que, sem usar mãos, armas ou objetos cortantes e pontiagudos, causou ferimentos graves em alguém? Por que ninguém previu isso na lei?

As pessoas lotam os consultórios psiquiátricos, se entorpecem de remédio pra ansiedade, remédio pra depressão, remédio pra pressão, remédio pra dormir, remédio pra acordar. Remédio pra viver. Pra fazer viver quem quer morrer. Remédio pro irremediável. Pra dor que não passa. Pra ferida que ninguém vê. Vãs tentativas de resolver o caos interno. As pessoas tentam remediar uma dor que parece que nunca vai ter fim, um sofrimento que vem de dentro. Bem fundo. Tão fundo que nenhum remédio ou substância tóxica é capaz de alcançar.

Entendo perfeitamente crimes passionais. Entendo perfeitamente quando minha amiga diz que não consegue conversar mais com o ex-namorado porque ela tem vontade de bater nele. Entendo meu amigo que diz que preferia ver a namorada morta do que com outro. Sinceramente, entendo. Quando alguém te machuca, te decepciona, te magoa, a dor é tão grande que você quer agredir a pessoa de volta. Você se sente impotente. Enganado. Ferido. Frustrado. Dá vontade de matar. De morrer. De sumir. Seu mundo desaba bem na sua frente. Você sente que perdeu seu tempo, sua vida, sua auto-estima, suas forças. E qual a pena pro agressor nesse caso? Qual a pena pra alguém que entrou na sua vida, na sua casa, nos seus sonhos, nos seus planos e, num piscar de olhos, destruiu tudo como se tivesse esse direito?

O que sempre falo com meus amigos (como se conselho valesse de alguma coisa) é que vingança não é remédio. Nem fazer justiça com as próprias mãos. Acredito que o tempo se encarrega disso. Acredito que pessoas que usam da confiança e boa vontade das outras nunca vão se dar bem na vida. Ou não vão ser felizes. Ou nunca vão conseguir amar de verdade. Ou não mereciam a gente. Ou que a gente deve agradecer por ter se livrado de um encosto. Ou sei lá o que. Nunca fui boa conselheira. Talvez essas sejam as formas da vida punir quem brinca com o coração dos outros. Não sei mesmo. Em todo caso, deseje o mal de volta pra pessoa. Não por vingança. Só pra ver se ela é forte como você.

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Esse texto é resultado de uma conversa de MSN com meu melhor amigo (quase irmão). Prometi que iria escrever sobre o tema e taí.
Beijocas.

11 janeiro 2008

EU QUERO TER CERTEZA

E, depois que ouvi essa frase, todas as únicas certezas que eu tinha na vida foram pro ralo. Escorreram pelo meu rosto lavando o resto de alma que eu ainda tinha nele. Logo eu, que nunca tive sequer uma certeza na vida, preciso dar garantias pra alguém de algo que eu não faço a mínima idéia. Eu digo que amo, mas talvez eu não saiba o que é amor. Eu ouço juras de amor de gente que confunde os sentimentos. E me confunde.

Dizem que, quando a gente ama alguém, deve deixar livre. Então, realmente não sei amar. Não consigo dizer que amo e ficar longe. Não consigo gostar e não ter notícia. Não me dou bem com a distância. Não entendo relacionamentos abertos. Não admito traição. Não entendo quem gosta e não quer ficar junto. Não entendo quem diz que ama e não sabe se quer. Não entendo alguém que quer certezas sem apostar no relacionamento.

O dia que eu coloquei meu passarinho no dedo, levei ele pra rua e ele não quis ir embora, mesmo podendo voar, eu entendi o que é liberdade. É querer estar junto mesmo com milhares de outras possibilidades lá fora. É poder ir e querer ficar. É ter a chance de escolher. Liberdade é ter milhões de caras na sua cidade pelos quais você poderia se interessar mas você se enfia num aeroporto lotado pra atravessar o estado e ficar com quem você quer. Liberdade é poder falar que ama. Liberdade é poder falar do que não gosta. É saber conviver com a diferença e respeitar isso. É entender que ninguém é exatamente do jeito que você imaginou que fosse. É estar junto e fazer planos. É estar junto sem saber o que vai acontecer amanhã. É querer continuar mesmo que os planos dêem todos errados. Mesmo que você não tenha nenhuma certeza.

Vou seguir o que dizem e deixar livre. Vou seguir. Livre. Fazendo planos pra minha própria vida. Ou não. Vou simplesmente deixar que as coisas sigam seu curso natural. Livre. Que a vida continue. Que as incertezas passem. Que a paz reine. Que o amor renasça. Que possamos fazer escolhas certas e escolhas erradas. Que a tal liberdade sirva pra isso. Pra nos permitir viver errando, acertando, amando, descobrindo.

Eu nunca quero ter certeza de tudo na vida. Acho que amar é isso. Saber dar sem garantias. Sem exigir nada em troca. Arriscar, acreditando que vai dar certo. Sem olhar pra trás e se arrepender porque deu errado ou porque não era bem assim que você planejou. Acho que amar é a incondicionalidade. Não impor condições. Não ter prazo de validade. Não sei nada sobre amar, mas desconfio que não tem nada a ver com certezas.

23 dezembro 2007

SOBRE ESPERANÇAS E EXPERIÊNCIAS


Nunca gostei de fazer promessas de ano novo. Nunca cumpro nada do que prometo no começo de cada ano e acabo me frustrando. Um arraso. Antigamente, eu fazia uma lista de coisas. Que só serviam, é claro, pra eu perceber o tanto de coisas que gostaria de ter feito e não fiz. Agora, com mais um ano chegando ao fim, resolvi fazer uma não-promessa. Acho que essa vai ser mais fácil de cumprir. Explico: menos expectativas. É isso. Minha promessa de ano novo é esperar menos, ser menos exigente. Comigo e com os outros. Descobri que as pessoas exigentes demais são as que se frustram na mesma proporção. Quanto mais a gente espera dos outros, mais a gente continua esperando.

Espero tirar nota dez e me frustro com o nove. Espero contar com todos os meus amigos sempre que precisar e me frustro com as desculpas esfarrapadas que eles dão pra me deixar na mão. Espero que eu seja magra, linda, loira e sarada e me frustro se tenho vontade de fazer nada, comer só porcaria e ficar o mês inteiro sem malhar. Espero que minha pele seja igual eu faço ela ficar no photoshop e me frustro cada vez que vou ao dermatologista e ele não me deixa tomar sol no rosto.

Aquela história de “quanto mais alto o coqueiro, maior o tombo” é bem verdade. A gente sonha demais, espera demais, quer demais. E o que a gente encontra são pessoas normais, peles normais, barrigas de chope, banhas laterais, cabelos desgrenhados. Gente que tira meleca do nariz – do próprio e dos outros. Gente que amarra o cabelo com a calcinha amarela no terceiro encontro. Gente que tem micose na unha do pé.

Bons tempos aqueles que eu assistia a Xuxa cantar Lua de Cristal e acreditava que o mundo poderia ser melhor se eu fosse uma pessoa melhor. Que todos os meus sonhos iam se realizar só porque eu queria. Que todas as pessoas do mundo eram loiras, lindas, lisas e paquitas. Que o mundo era um arco-íris. Hoje, eu sei que arco-íris é apenas a bandeira gay, que algumas paquitas viraram mulheres de reputação duvidosa (o Word não quer reconhecer o nome que escrevi aqui) e a Xuxa virou uma chata que colocou no mundo mais uma menina mimada, dando exemplos modernos com sua produção independente.

De verdade, queria escrever um texto cheio de esperanças e promessas para o ano novo. Mas todo ano que passa, acredito mais na experiência do que na esperança. Então, desta vez, vou fazer uma promessa diferente. Vou esperar menos. Vou esperar o beijo de boa noite ao invés do eu te amo. Vou esperar o carinho ao invés das palavras bonitas. Vou esperar o som, o sorriso, o gesto. Vou esperar a sinceridade, a simplicidade. Vou esperar menos do que eu posso dar. Vou esperar a companhia sincera de poucos amigos. Vou esperar o final de semana ao invés de querer o pra sempre. Vou acreditar que o “pra sempre sempre acaba”. Vou assistir menos filmes com Leonardo DiCaprio. Ouvir menos música sertaneja. Vou ser menos romântica - no sentido literal da palavra. Vou parar de esperar que todos os filmes tenham finais felizes. Que nossos bichos de estimação vivam pra sempre. Vou parar de esperar. Minha promessa de ano novo é bem simples: não me prometo mais nada.

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Amores, um Natal lindo pra todos e um 2008 cheio de sucesso!
Beijos

26 novembro 2007

UMA LÁSTIMA


Quando eu era criança, me ensinaram que a gente deve fazer o bem sem esperar nada em troca. Me ensinaram que as pessoas não vão ser boas comigo porque eu sou boa com elas. Me ensinaram a nunca esperar nada em troca. Até no “catecismo” (é, eu fiz isso!) me contaram que seu Jesus ajudou não sei quantas pessoas e só uma voltou pra agradecer (não sei contar história direito, mas é mais ou menos isso). Eu já deveria ter aprendido nessa hora.

Mas não. A gente quebra a cara, apanha da vida, se ferra e não aprende. Você ajuda uma pessoa que depois quer puxar seu tapete, você respeita alguém que mal conhece essa palavra, você presenteia pessoas que fazem pouco caso de você no dia do seu aniversário, você é fiel ao cara que só está esperando a primeira oportunidade pra te colocar um par de chifres, você paga o jantar da sua amiga que depois quer rachar o estacionamento de três reais com você.

Seria muita hipocrisia minha dizer que gosto de fazer o bem pras pessoas e só tomar ferrada em troca. Mas não sou covarde o suficiente pra dizer que sou boazinha pra agradar o mundo e não me importo se as pessoas agem com descaso comigo. Me importo sim. Não tolero descaso, falta de consideração, falta de respeito. Não tolero gente sem educação porque sou educada com as pessoas. Não tolero gente que não cumpre com a própria palavra porque, a partir do momento que eu me comprometer com algo, vou cumprir com o que foi dito.

Nunca admiti, na minha vida, homem que diz que vai ligar e não liga. Nunca entendi minhas amigas que tomam end dos caras e insistem em ligar pra eles mesmo assim. Nunca entendi mulher que toma chifre e finge que não sabe. Na verdade, nunca entendi gente que finge de burro pra continuar pastando. Descaso, falta de consideração, falta de educação, falta de respeito, falta de hombridade, falta de coleguismo, falta de ser gente. Nunca vou entender como alguém acha isso normal.

Sempre esperei que as pessoas agissem comigo da mesma forma que ajo com elas e é por isso - e só por isso - que sou honesta. Que sou franca. Que sou amiga. Que sou fiel. Só por isso me esforço pra ser uma pessoa boa. Porque espero das pessoas o mesmo tipo de atitude. E não porque quero ser a Madre Teresa de Calcutá ou almejo algum tipo de canonização. Mas sabe de uma coisa? Bobagem. Na hora que a coisa aperta, é com um ou outro que você pode contar e só. Aí, cadê aquela sua amiga pra quem você pirateava cds do Jota Quest porque ela não tinha dinheiro pra comprar? Cadê aquela outra que, quando a mãe dela ficou doente, você se ofereceu pra ir com ela de madrugada pro hospital? Cadê aquela amiga que você buscou e levou em casa durante os quatro anos de faculdade? Cadê aquelas que freqüentavam todas as festas na sua casa? Cadê aquela que você levou em casa lá no fim do mundo quinhentas vezes depois das festas? Cadê todo mundo quando você precisa de uma coisa muito simples?

Não sei onde estão essas pessoas e agora, de verdade, prefiro não saber. Prefiro que todas elas se lasquem porque agora vou ser uma pessoa pior. Cansei de fazer o bem e me dar mal. Cansei de esperar atitudes das pessoas e mofar esperando. Cansei desse povo sobrando inútil na minha vida. Cansei de ser a boazinha. A que sempre se fode. Cansei dessa hipocrisia de fazer o bem de graça. Cansei de ser a única a me lascar. Cansei de me lascar de graça.

10 novembro 2007

É SÓ O MEU JEITO

Você já devia saber que uma garota que já deu uma bolsada na cara de alguém não está pra brincadeira. Já deveria conhecer meu tom seco e sarcástico e minha insuportável mania de falar a verdade sem me importar com o que os outros vão pensar. Sem me importar se vão continuar gostando de mim mesmo assim. E mesmo assim você me quis. Mesmo conhecendo meus defeitos mais ácidos e meu (mau) humor oscilante. Mesmo assim você pagou o preço e apostou todas as suas fichas pra ver no que ia dar. Corajoso você.

Nunca precisei fingir que sou uma pessoa boa. Nunca precisei fingir que eu não to nem aí quando eu to mais aí do que aqui. Não faz meu tipo. Me esforço às vezes pra ser romântica, pra acreditar nos planos. Pra acreditar nas pessoas. Nunca chorei pra convencer. Talvez porque não faço questão de convencer. Ou, como você mesmo diz, sou direta. Fria. Seca. É. Nada disso é novidade pra ninguém. É só o meu jeito.

Mas o que você não sabe é que eu nunca precisei assistir novela pra construir frases bregas. Nunca li e-mails de auto-ajuda em Power Points coloridos - que piscam, cantam e mostram imagens de santos - e ainda assim sou brega. Nunca precisei ser melosa pra ser romântica. Nunca precisei fazer esforço pra dizer que amo. Só consigo chorar se estiver triste. Não sei fazer cena. Meu personagem é o mais puro retrato de mim. Sem máscaras.

Deve ser por isso que sou tão chata. Intolerante. Exigente. Dou 100% de mim e exijo o mesmo em troca. É alto o preço. Mas você - todo orgulhoso - ligou, insistiu, chegou e disse que queria pagar pra ver. E eu – confiante – disse sim, aceito. Aceitei que você ia aceitar minha chatice. Minhas “nóias” (como você diz). Aceitei trocar a boa vida de solteira pelo seu colo macio. Larguei a balada e me prendi a você. Soltei o mundo pra segurar a sua mão.

Não é qualquer um que agüenta, eu bem sei. Mas você arrumou um jeito de me dobrar. Fez um origami de mim e agora eu estou na sua mão. Por você, abri uma exceção. Virei minha vida do avesso. Abri minha casa. Meu coração. Por você eu apaguei os nomes do meu celular. Esqueci os abdomens sarados. Apaguei meu passado. Por você, parei de escrever, avacalhei a rima e esqueci os versos. Por você, abandonei os outros alvos. Acertei na escolha. Larguei as festas, os riscos. Larguei a vodca com energético. Misturei amor com você.

Não é nada fácil. Mas você é bom nisso. Você me amolece com suas palavras. Me suporta com esse seu jeito doce-azedinho. Você é uma pessoa boa e acha que o mundo é bom. Aprendeu a ver o mundo com seus olhos (me ensina?). E eu sou pura. Pura azedura. Puro teste de paciência com você. Testo seus nervos, sua pele, seu suor. Testo suas noites de sono. Seus sonhos. Misturo os meus com os seus. Me perco em você todo. Agora só falta a gente achar um caminho. Me ensina a falar a sua língua. Me ensina a ver o mundo bom que você quer me mostrar lá fora. A ver o que eu não vejo. Me leva pra você. Some comigo no mundo. Me coloca pra dormir e só deixa eu acordar se for do seu lado. Não me deixa sozinha nunca mais.


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Amores, desculpem meu sumiço infinito. Tenho dormido mais cedo e, como funciono melhor à noite, tá phoda de escrever de dia! Prometo não me ausentar por tanto tempo novamente.
Beijos e continuem por aqui.

06 outubro 2007

SOL E SOLIDÃO

Acho que minha alma se retirou do meu corpo. Ou talvez seja só tristeza. Saí de casa sem rumo. Querendo comprar algo que talvez não estivesse à venda em lugar algum. Saí de casa pra procurar alguma coisa que eu não encontrei em mim. Os chocolates não me apetecem mais. As promoções não fazem minha cabeça. Olho no espelho do shopping e minha cara pálida entrega que saí de casa sem o mínimo cuidado comigo mesma. O cabelo preso pra trás da orelha compõe meu desleixo. O retrato mais fiel.

Os olhos esmoecidos. O corpo quente como num estado febril. As mãos fracas. A cabeça longe. Dirigir se torna um risco nessas horas. Os reflexos diminuem. Já não respondo mais a estímulos. O celular não toca e a sensação de vazio preenche meu corpo inteiro. O silêncio me afunda no banco do carro e então volto pra casa. Aquela casa pequena onde eu sempre me dei muito bem sozinha agora parece que vai me engolir.

Estou sozinha.

Tenho uma família que me ama. Tenho um namorado que diz que me ama. Tenho poucos amigos. Mas nessas horas, sou só eu. Já saí sem destino e voltei pra casa. Já procurei lugares pra me divertir à noite, mas me faltou vontade. Só queria querer. A gelatina que comi no café da manhã é o que me sustenta de pé até às dez da noite quando penso em comer alguma coisa e meu estômago embrulha. Meu corpo magro – que já é mais osso do que pele – dá claros sinais de alerta. A pressão cai. A visão fica ligeiramente turva. Os músculos mal seguram o corpo.

E o corpo é tudo que me resta. Esse resto de mim. Alguma coisa se perdeu ontem entre 1h40 e 2h10 da manhã. Entre uma briga e outra. Entre palavras cuspidas na cara. Minha alma, pra não sofrer, decidiu se retirar. Saiu sem se despedir ou ao menos dizer se volta. Foi embora deixando comigo a solidão. Não tenho sono. Não tenho fome. Não tenho vontade. Não consigo rir. Nem chorar. Não sinto amor. Não tenho ódio. Não quero ir. Não consigo ficar. Não quero falar com ninguém. Não quero minha própria companhia.

Acho que descobri o que é solidão. Não é tristeza. Não é morar sozinha com um passarinho por doze anos. Solidão é ter uma família. Ter amigos. Ter namorado. Solidão é ter uma casa linda pra morar. Ter um carro lindo. Ter um emprego. Ter dinheiro pra pagar as contas. Ter uma piscina pra tomar sol. Ter um dia lindo de sol. Solidão é ter tudo. É ter tudo isso e não ter poesia na vida. Não ter cor. Não ter sol. Não ter a si mesma. Solidão é quando sua alma te deixa solta num canto qualquer e você tenta juntar os pedaços.

28 setembro 2007

E QUEM PAGA MINHAS CONTAS?


Impressionante como as pessoas não se cansam dessa formulazinha batida de novela de “quem matou fulano”. Ta aí porque eu não assisto tv. Senão eu que iria me matar. E o tal Big Brother, meu deus?! Sétima edição da mesma baboseira??? A gente precisa mesmo disso? Será que nossa vida é tão desinteressante assim que precisamos da vida dos outros pra nos distrair? Será realmente que não temos mais em que pensar a não ser em quem matou quem na novela? To começando a achar que o problema é comigo.

Minha conta da Intelig venceu há dois dias e ainda não chegou a fatura pra eu pagar. Isso porque os Correios estão em greve. O que me lembra ainda que meu recurso da multa por estacionar em local proibido também não chegará no prazo ao órgão que me multou. E por falar em multa, acho que vou ter que pagar sozinha o conserto do meu carro. O conserto, não! Os consertos. Plural. A fechadura da porta que o ladrão tentou arrombar, o amassado na lateral depois que aquele imbecil bateu no meu carro e não assumiu e, ah, as pastilhas de freio que estão arranhando. Agora me lembro porque não assisto novela. A última coisa que preciso é saber quem matou Taís. Me poupem.

Num país onde prostituta vira ídolo na novela, na Luciana Gimenez e na vida real, não é de se espantar que o assunto do momento é o tal defunto. Até a MTV espera a porra da novela terminar pra exibir a outra porra que é o Vídeo Music Brasil. A premiação que eles esperam o ano inteiro e fazem contagem regressiva por 364 dias. E tudo isso pra premiar uma bandinha desafinada como a tal Fresno e a outra bandinha emo NX ZERO (como se escreve isso?). É, pelo que parece, talento não é o que conta por aqui. O que conta é conhecer a pessoa certa. Mais que isso! Dar para a pessoa certa, como fizeram nossa diva Luciana Gimenez, a intelectual Adriane Galisteu e a nova arreganhada do momento, Mônica Veloso (que, além de abrir as pernas pro Renan e na revista, ajudou o país a esquecer o mensalão no banheiro).

Pra tentar chegar aos pés da audiência da Globo e tirar as atenções de tantos famosos na MTV, nossa diva leva aos palcos uma moça de família da rua Augusta pra falar sobre o tema “Ela só vai ao baile funk sem calcinha”. Que belos exemplos na televisão brasileira! Agora me lembro também porque não vou colocar filho no mundo. Pra não ter o desgosto de descobrir o que é que uma garota vai fazer no baile funk de saia curta e sem calcinha.

Enquanto eu ligo o computador pra ver os e-mails com as putarias que meus amigos me mandam, os renans comem as mônicas e eu ajudo a pagar a conta do motel. Enquanto as aspirantes a famosas dão pros produtores e pros donos de emissoras, eu tenho que tolerar as cantadas baratas do playboyzinho fracassado do meu trabalho. Enquanto as bandinhas sem o mínimo talento recebem prêmios e dão entrevistas, eu dou o máximo do meu talento e meu prêmio é fazer hora extra na empresa onde trabalho. Enquanto loiras gordas de nome estranho que falam errado com sotaque roceiro vendem câmeras na tv, eu vendo o almoço pra pagar a janta. Enquanto eu falo “janta”, os deputados torram meu dinheiro em jantares luxuosos, com moças baratas que vão custar bem caro. Enquanto o país quer saber quem matou Taís, Lineu, Odete e o diabo, enquanto os pobres lotam as filas de inscrição pro Big Brother, eu desligo minha televisão e ligo pra Intelig pra pedir minha segunda via. Sou eu que pago a conta.

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Amores, desculpem o mau-humor!!! Beijos e bom fim de semana.

20 setembro 2007

A VERDADEIRA BALADA DO AMOR INABALÁVEL

De repente, a vodca virou vinho. A festa fechou as portas. A solteira se comprometeu. A cidadã baladeira que não perdia uma festa sequer, perdeu o juízo e se jogou. Perdeu também a paciência com a amiga que fica horas descrevendo a roupa de não sei quantas cifras que ela comprou pra ir àquela super-mega-ultra-power festa do final de semana naquele super-mega-ultra-power lugar que ela já foi zilhões de vezes. A cidadã ouviu o toque de recolher.

Acabou a graça de sair pra paquerar carinhas que não vão dar em nada. Acabaram as noites sem dias seguintes, os dias seguintes que ainda eram a balada da noite anterior. A cidadã não tem mais paciência pra festas regadas a saias que exibem o útero, por cabelos que exalam formol, por decotes que disputam o maior silicone, por playboys que também disputam o maior silicone, pelos silicones que disputam o carro mais caro e o cara mais barato. A música alta torrou a paciência, corrompeu os neurônios e estourou os tímpanos. Suas roupas curtas são tão curtas que não caberiam em nenhum outro lugar a não ser em festas com pessoas dopadas pela droga do momento e embaladas por música que repetem o tuntz-tuntz a noite inteira.

A cidadã, que nunca teve vícios, se viciou. Se viciou em querer um cidadão só. Um cidadão que agüenta todas suas manias. Um cidadão que criou nela o hábito dele. Que viciou ela nele. E agora o vício dela é repetir ele. O vício dele. Vinte quatro horas dele. Sete dias por semana ele. Acorda, ele. Dorme, ele. Só ele.

Ele faz todas as vontades dela, viaja, sua, ri, canta, toca, come, beija. Ela é a cidadã que faz a única vontade dele. Ele compra vinho, ela faz chapinha. Ele toca violão, ela canta música brega. Ele compõe, ela desafina. Ele é sol, ela é de lua. Ele quer envelhecer junto, ela quer morrer antes de envelhecer. Ele planeja o futuro, ela não tem a mínima pista de amanhã cedo. Ele paga previdência privada, ela paga depilação a laser. Ele é tudo que ela sempre quis um dia, antes mesmo de ela saber que queria. Ele quer ela, ela quer ele.

A cidadã ex-baladeira-frenética-sem-rumo recolheu suas fichas e foi apostar em outro lugar. Mais seguro. Com menos risco. Mais certezas. E, por incrível que pareça, mais emoção. A cidadã prefere acordar de manhã e saber pra quem ligar do que tentar lembrar o nome da noite anterior. Prefere estar com alguém que conheça seus defeitos, que tolere suas pirraças, que a ame apesar do que ela é. Prefere saber onde está pisando.

Como se preferir fosse algo que ela tivesse escolhido. Não foi. Aconteceu enquanto ela planejava um final de semana e outro. Aconteceu enquanto ela não tinha planos para o carnaval e lamentava a maldita época do ano em que os rolos mal enrolados aproveitam pra desenrolar. Aconteceu numa noite de céu estrelado e aviões que ainda voavam baixo lá em cima. Aconteceu sem que ela tivesse o mínimo controle ou pelo menos uma vaga pista do que estava fazendo. Aconteceu e ela ainda não sabe muito bem o que está fazendo. Só que, agora, se ela tiver dúvidas, ela tem pra quem perguntar. E quando ela não tiver certezas, ela ainda vai ter ele.