03 julho 2010

SIM, ACEITO

Não é de hoje que casamento é negócio. As pessoas se casam pra pagar menos no plano de saúde de família. Pra ter uma esposa pra apresentar na empresa e conseguir uma promoção pra um cargo. Pra ter um marido pra pagar as contas. Pra pertencer a um grupo social. Pra ter uma família pra quem deixar a herança. As pessoas se casam por diversas razões. E amor poucas vezes está incluído no pacote.

Vi essa semana na tevê que o tal do Tiger Woods, jogador de golfe americano, se separou da mulher e ela embolsou 750 milhões de dólares dele. Mais a guarda dos filhos. Em troca, a ex-esposa não poderá falar nada sobre os romances que o ex-marido teve fora do casamento. Vou traduzir pro texto ficar mais claro: a cidadã aceitou ser corna durante anos - sei lá quantos - para embolsar uma bolada depois. Isso é amor ou negócio? (Na verdade, eu acho que isso tem um outro nome, mas aí já é assunto pra um outro texto).

Tem hora que eu fico meio puta. Dá vontade de chutar o balde e dançar conforme a música. Arrumar um homem rico que pague minhas contas e fazer tudo conforme manda o novo figurino. Foda-se o amor que só me fode a vida, foda-se que eu acredito que casamento tem que ser por (e com) amor, foda-se que eu gostaria de me casar com alguém que eu ame ao invés de me casar uma conta bancária. Tem hora que me dá vontade disso mesmo. Mas o surto dura poucos segundos e logo volto ao meu estado normal.

Acho muito espertas as Daniela Albuquerques da vida que se casam com velhos gordos carecas, 40 anos mais velhos que elas, pra ter um programa meia-boca num canal meia-boca e lançar kit de beleza. Juro que acho. Mas eu não aguentaria viver de esperteza. Perder minha juventude e minha beleza sendo esperta ao invés de ser amada. Acho muito espertas as Gimenez da vida que dão pra velhos roqueiros ricos e casados pra embolsar uma pensão gorda. Mas, sinceramente, eu não conseguiria. Primeiro que não tenho o mínimo dom pra fazer sexo por dinheiro. Segundo que eu acho que filho é coisa séria, deve ser parte de uma família, e não uma fonte de renda.

Mas nada disso é privilégio da vida moderna. É assim desde que o mundo é mundo. As pessoas trocam amor por dinheiro, sexo por dinheiro, dignidade por dinheiro. Casamento é negócio. Troca de interesses, na maioria das vezes. Admiro pessoas que se casam por amor porque é bem mais difícil de dar certo. Tem que ter fidelidade. Companheirismo. Compreensão. Tolerância. Cumplicidade. Amizade. Carinho. Respeito. E uma lista interminável de quesitos que as pessoas que se casam por amor não estão dispostas a trocar por dinheiro algum. Não é fácil. Amar dá trabalho. Muito mais prático fazer do casamento um negócio mesmo. Eu ainda to na peleja. Tentando acreditar que amar pode dar certo e que casamento por amor é que vai funcionar pra mim. Não preciso de tanto dinheiro assim pra viver. E ainda que eu precise, acho que posso conseguir o meu pé-de-meia sem negociar meus valores num casamento de conveniência.

23 junho 2010

SOBRE FINAIS E RECOMEÇOS


Escolhi minha profissão aos 17 anos de idade. Vou repetir: 17 anos. Isso mesmo. Com 17 anos, você é obrigado a escolher o que vai fazer pelo resto da sua vida. Inclusive para ganhar a vida. Aos 17 anos, você não tem maturidade suficiente para saber o que quer da vida no final de semana, quanto menos pra saber o que quer da vida quando for adulto. Aos 17 anos você acha que é adulto. Afinal, você vai fazer 18 anos e aos 18 anos, na sua cabeça, você é uma pessoa super responsável já. Então você pega uma lista de cursos superiores das faculdades – na minha época, o Guia do Estudante – e começa a ver onde você melhor se encaixa.

No meu caso, sempre tive talento pras artes. Sabia escrever, mas não queria ser jornalista. Então, o que eu poderia ser? Publicitária, claro. Olhei no guia: salário inicial médio de cinco mil reais. Opa! É isso mesmo que eu vou ser então. A minha cara! Prestei vestibular e passei de cara. Aos 17 anos. Quatro anos depois, saí da faculdade formada. Uma publicitária. Meu primeiro emprego foi numa agência de publicidade que era o sonho de dez entre dez recém-formados. Meu primeiro salário: 171 Reais. O salário mínimo da época. Mal pagava a gasolina que eu gastava pra ir trabalhar.

Ralava até altas horas da noite. Engolia sapo de cliente estressado e de chefe exigente além da conta. Ouvi várias vezes a frase: vai fazer do meu jeito porque sou eu que estou pagando. E voltava pra casa pensando se não era melhor eu ir rodar bolsinha na esquina já que eu me sentia como uma puta. Paga para fazer o trabalho sujo. Chorei. Me estressei. Dei meu sangue. Fiz meu melhor. Agradei o chefe, o cliente, quem tava pagando. Mas nunca consegui agradar a mim mesma. Vivia insatisfeita vendo o dono da empresa comprar carro de meio milhão de Reais enquanto minha colega de trabalho que ralava lá há cinco anos dia-noite-madrugada não conseguia trocar seu carro mil por um modelo mais novo.

Mudava de emprego, mudava de problema. O fato é que, aos 17 anos, você é muito novo pra saber o que quer da vida. Aos 17 anos, não temos a mínima noção dos pepinos, dos perrengues e da vida real. Na minha cabeça, publicitário ficava lá tendo idéias maravilhosas, criando campanhas milionárias, ganhando prêmios em Cannes. Existem esses? Existem. Mas são os Ronaldos da vida. Um em milhões. O maioria vive de sonho, ilusão e muita ralação. Nem de longe lembra o glamour que a gente imagina.

Glamour. Sempre soube que eu gostava do glamour. Do belo. Das artes. E aí, um belo dia, chutei o balde. Decidi me arriscar em outro ramo. Começar do zero em alguma coisa que tenha tudo a ver comigo. Já que é pra ralar, suar a camisa, dar o sangue, que pelo menos eu faça aquilo que me dê mais prazer do que estresse. Algo que me dê orgulho de mim mesma no final do dia e não que me faça chorar por me sentir subestimada em troca de um salário baixo. E eu resolvi largar tudo e começar de novo. Em outros ares. Agora já madura o suficiente pra saber o que eu quero pra minha vida. Pra saber que eu quero viver do glamour sim, mas que ele pague minhas contas no final do mês. Que eu possa ter horas de lazer, mas se eu não tiver tantas quanto eu gostaria, que eu me divirta fazendo o que eu gosto no meu trabalho.

Um brinde aos novos começos.

13 junho 2010

CADA UM NO SEU PASSADO


Passado é uma merda. Você começa a namorar e o passado do cidadão vem junto. É aquela melhor amiga que já foi pegueti dele um dia e agora frequenta a casa dele e convida ele pras baladas. É aquela prima que ele passou a vida inteira babando nela e de repente começa a dar bola pra ele (e você, óbvio, não tem direito de sentir ciúme de “prima”). É aquela ex-namorada que morou junto na mesma casa e dormia na mesma cama que hoje você dorme. É aquela cama, inclusive, pra onde ele levava uma mulher diferente toda semana, em que você vai ter que dormir. É aquele monte de merda que o cidadão te contava que fazia. É com isso que você vai te que conviver agora.

Ter um relacionamento, seja ele qual for, não é fácil. Ter um passado, seja ele qual for, é inevitável. Tem gente que traz um final de casamento mal resolvido. Tem gente que traz uma penca de filhos. Tem gente que traz uma ex-namorada que não sai da cola. Tem gente que traz filho que nem sabia que tinha e que aparece dez anos depois. Tem gente que traz traumas de relacionamentos antigos. Tem gente que traz medos. Decepções. E mágoas.

O passado deveria servir pra trazer aprendizado. Experiências positivas. Esperança. E ficar pra trás. O passado não deveria ser uma mala que você carrega a viagem inteira. Tudo que se vive é válido. É lindo (algumas vezes). Mas é passado. Serviu como experiência, mas passou. Passado.

Tem gente que não consegue simplesmente deixar ir. Eu tenho amiga que ainda liga pro ex-namorado depois de três anos que terminaram. O pobre coitado do sujeito já explicou mil vezes que tá namorando com outra, que vai se casar e ela não se toca. Tenho outra que coleciona namorados. Namora com um, mas continua de rolo com os ex, pelo simples fato de não conseguir largar o osso. E nisso, já está no terceiro namorado fatorial.

Seria muito bom que você pudesse interagir com alguém como se nenhuma das partes tivesse vivido experiências boas ou ruins. Como se fossem uma página em branco. Mas não é assim que funciona. Você e todo mundo têm uma memória interna. Um HD onde a gente vai salvando as coisas, deletando umas e outras por descuido – ou por querer – pra caber mais coisas de novo. E nesse HD a gente guarda tudo, desde que a gente nasceu. Pra isso serve essa memória interna. Porque é lá onde as coisas que passaram devem permanecer. Nas lembranças. Quando o passado começa a brigar com o presente, é porque alguma coisa está errada. Fora de lugar. Um deles está invadindo o espaço do outro. Seu passado é só seu. O passado do outro é só do outro. E, se esse passado não foi vivido junto no seu devido tempo, não tem porque ser vivido junto no presente.

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Queridos, tenho escrito pouco, pois decidi parar de escrever sobre minha própria vida e apenas escrever sobre minhas percepções da vida.
Beijos e boa semana.

27 janeiro 2010

ESMALTES E UM BURACO VAZIO


Ando insatisfeita com esmaltes. Troco de esmalte duas vezes por semana e quero comprar uma cor nova cada vez que pinto as unhas. E nunca acho a cor certa que estou procurando. Na verdade, troco tanto porque não sei qual cor estou procurando. Ando insatisfeita com esmaltes. Ando insatisfeita com esmaltes, com hidratantes perfumados e comigo mesma. Ando comprando coisas inúteis demais. Comprando coisas demais pra preencher um vazio interno que não precisa de esmalte, de hidratante perfumado ou de nenhuma outra coisa que se possa comprar pela internet.

Dizem que a solidão é o mal do século. Eu concordo. Solidão é ter amigos, ter um namorado, ter uma família linda, ter milhares de admiradores. E não ter a si mesma. Solidão é viver numa sociedade cada vez mais superficial, cada vez mais consumista, que julga as pessoas pela aparência e pelo tanto de dinheiro que elas têm. Solidão é o que move a internet hoje – e sempre. Solidão é a única razão pela qual os Orkuts, Facebooks e Twitters da vida se popularizam cada vez mais. Queremos amigos, queremos mensagens fofas, queremos depoimentos que dizem pro resto do mundo o quanto somos lindos, cheirosos e bem amados. Queremos mostrar fotos das viagens pra Europa, queremos mostrar fotos com trinta amigos diferentes, queremos mostrar foto do namorado novo da semana, queremos mostrar fotos da nova melhor amiga de infância que acabamos de conhecer, queremos que o mundo saiba que somos amados. Queremos admiração. Queremos falar, o tempo todo, que temos amigos, amor e dinheiro. Mostramos (ou, pelo menos, tentamos mostrar) pro mundo que somos a estampa ideal, quando, na maioria das vezes, a viagem pra Europa foi financiada em mil vezes ou foi paga pela empresa, os trinta amigos da foto só são amigos na hora da foto e não são pessoas que se importam de verdade no dia-a-dia. E os novos amores se vão a cada semana.

Queremos ter mil amigos no Orkut, mas não achamos companhia pra assistir um filme no cinema quarta-feira à noite. Queremos nos comunicar com todo mundo do Facebook e “reativar” amizade com pessoas com as quais mal falávamos “oi” dois anos atrás. Damos bom-dia no Twitter (um negócio onde se fala sozinho) e não damos bom-dia pro vizinho no elevador. Adicionamos Deus e o mundo no maldito MSN pra termos companhia e não perder o contato com aquela pessoa tão querida e amada com a qual trocaremos três frases ao longo do ano. Pessoas verdes online com as quais mantemos relações virtuais 24 horas por dia. Tudo muito superficial. Tudo muito virtual. Tudo fruto da nossa maldita carência, tão maldita quanto essas relações virtuais infundadas. Precisamos nos afirmar pro mundo e pra nós mesmos. Precisamos nos encaixar nos padrões atuais de pessoa bem-sucedida e amada pra sermos aceitos.

Mas o vazio está lá. Nas tardes de domingo. Nas compras virtuais cujo encantamento acaba assim que o produto chega à nossa casa. Esperamos encontrar a felicidade no Macbook novo, no celular com mil funções que não toca, nas novas cores de esmalte que são lançadas toda semana, nos hidratantes perfumados, nos xampus caros. Compramos pra ter companhia. Compramos pra preencher um vazio interno. O mesmo vazio que tentamos preencher com amigos virtuais, relacionamentos virtuais e mentiras virtuais. Tapamos o sol com a peneira. Tapamos nossos buracos com relacionamentos que não existem. Despistamos nossa carência aguardando um produto chegar pelo correio. Nos tornamos tão superficiais quanto nossos relacionamentos virtuais. Nos tornamos tão efêmeros quanto os esmaltes da cor da moda. E continuamos nos sentindo vazios. E trocando a cor do esmalte a cada semana.

14 dezembro 2009

COISA DO DESTINO


E aí você acha que é coisa do destino. Sim, o destino, aquele desgraçado que só te arruma confusão. Aquele mesmo que vive aprontando com você e te metendo em enrascadas homéricas. Afinal, que outra força do universo colocaria você naquela situação tão inusitada depois daquilo que teria tudo pra ser o dia mais fracassado do ano (ou, quem sabe, da sua vida toda)? Coisa do “destino” e da sua cabeça maluca que acha que a vida é um filme de comédia romântica.

O “destino” glamouriza tudo. Um término de namoro, um começo, um recomeço. Seu ex-namorado te liga bem no dia que você saiu com aquele cara incrível - e foi uma merda. Aí, você acredita que é um sinal, que era pra ser assim, que aquilo foi um plano traçado por Deus ou pelos deuses ou por qualquer outra força superior que não depende da sua intervenção. A verdade é que nós, mulheres, somos seres carentes. Precisamos, o tempo todo, de sinais divinos, de finais felizes, de príncipes encantados. Enxergamos príncipes em sapos. Descobrimos o amor das nossas vidas com uma semana de namoro. Nos apaixonamos no segundo encontro (ou até mesmo antes do primeiro). Acreditamos em amor à primeira vista.

Usamos o “destino” como um calmante. Era pra ser assim. Você fala pra si mesma no dia que tomou o maior e mais dolorido pé na bunda de todos os tempos. Não era pra ser. Não era pra você namorar aquele imbecil. Era pra você sair com aquele lindo tudo de bom. Inventamos o “destino” pra justificar todas as coisas que acontecem que não dependem da nossa vontade. Chamamos isso de destino pra podermos seguir em frente sem mágoas e mais confiantes. Como se tudo de bom ou de ruim que acontecesse fosse pro nosso bem. Como se não fôssemos livres pra intervir e mudar o rumo das coisas. Excluímos de nós toda culpa, mas também todo mérito. Eliminamos o acaso da nossa vida. Não acreditamos em coincidências. Tudo era pra ser. Um plano traçado imutável.

E você vive sua vida esperando que o destino te arrume um bom plano pra seguir, espera que o sapo vire príncipe (mas só o contrário acontece), espera conhecer um cara bacana quando precisa de uma informação pra pegar um táxi numa rua deserta às onze da noite. Espera que esse cara te convide pra subir e que ele seja tão bacana quanto parece à primeira vista. Você espera que ele seja lindo e macio e gentil e um fofo. Você espera que ele te convide pra passar a noite ainda que você não aceite só pra não pegar mal. Você espera que você goste tanto quanto ele ou que ele goste um pouquinho mais. Você espera que todas as suas percepções façam jus à realidade. Você espera que isso seja mesmo coisa do destino. E que o destino (esse ingrato!) não esteja de novo te pregando uma peça.

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Amores, os textos postados aqui são obras de ficção e da minha cabeça imaginativa. Qualquer semelhança com a realidade terá sido (sempre) mera coincidência. E eu acredito em coincidências.

01 dezembro 2009

O QUE EU NÃO VOU FAZER NO REVEILLON

Eu tenho que viajar no final do ano pra um lugar imperdível porque é reveillon. Eu tenho que me virar pra encontrar meu namorado que mora a trocentos quilômetros de distância, enfrentar o caos dos aeroportos ou as estradas lotadas porque o mundo deve estar acabando e é a última coisa que posso fazer na vida. É reveillon. É reveillon e alguém decidiu que nos daria um único dia de feriado pra fazer o mundo inteiro querer viajar por causa de um mísero estúpido dia. Mas é reveillon. O ano vai mudar e você precisa celebrar o fato de que mais um ano ficou pra trás, mais um ano está chegando pela frente. E a única coisa que efetivamente muda na sua vida é o calendário da Caixa Econômica Federal que fica em cima da sua mesa no escritório.

É deprimente ter que responder, pelo menos dez vezes por dia, a pergunta daqueles que passaram o ano todo juntando dinheiro pra viajar no final de semana do reveillon: o que é que você vai fazer no final do ano? Vou dormir, pagar minhas contas, juntar dinheiro pra consertar meu carro, trabalhar no dia 31 e no dia dois de janeiro. Pro inferno. Por que é que eu “tenho que” fazer algo imperdível no final do ano? Por que é que eu preciso viajar justamente em dois ou três dias, pagando as tarifas mais caras de vôos, pegando as estradas mais cheias, gastando com diárias inflacionadas? Alguém me explica esse fenômeno?

Tenho outras datas pra viajar. Sou livre. Posso ir e vir doze meses por ano, me planejando com antecedência ou simplesmente resolvendo ir pra praia sexta-feira à tarde. Tenho amigos, tenho finais de semana, tenho férias e não entendo porque eu tenho que viajar no reveillon. Não tenho que nada. Mal tenho tempo de cuidar da minha vida no presente, quanto mais começar a pensar no reveillon ainda em julho (minhas amigas afoitas que me perdoem). Mudo de idéia desde a hora que acordo até a hora que vou dormir. Planejar final de ano com seis meses de antecedência, pra mim, é loucura. Mal planejo o final de semana seguinte. Não sei se vou estar viva até o final do ano, não sei se vou estar empregada, se vou estar sem dinheiro, se vou estar namorando. Não sei se vou. Me desculpem aqueles que acham que reveillon é a coisa mais importante do ano, mas pra mim o que importa é todo o resto. Os outros 364 dias entre um reveillon e outro.

Não vou fazer nada extraordinário no final do ano porque, sinceramente, não acho que, em dois dias, dê pra fazer nada que preste de verdade. Você se desgasta horrores, pega estradas, rodoviárias, aeroportos lotados, e gasta mais tempo pra chegar no seu destino do que na festa de final de ano em si. Acho chique quem vai passar o reveillon em Fernando de Noronha e já fica pras férias de janeiro. Acho chique quem vai pra New York tomar champanhe na virada do ano na Times Square e depois passa umas semanas fazendo compras. Mas acho extremamente barango quem sai no dia 31, viaja dez horas pra casa do caralho, chega lá, passa a bendita virada e volta no dia seguinte (mais 14 horas de viagem porque a volta sempre engarrafa). Ah, gente, faz favor, né?! Isso é glamour?! Não tenho dinheiro pra ir pra Noronha, pra NY ou pra outro lugar que preste pra me divertir de verdade ao invés de me estressar. E me recuso a me estrangular nos dois dias que inventaram pra gente fazer alguma coisa que preste. Prefiro usar os outros dias do ano.

03 novembro 2009

EM PAZ

Uma das grandes sensações que alguém pode experimentar nesta vida é a de paz. Paz consigo mesmo, com o mundo e com as pessoas que fazem parte da sua vida. A paixão não é um sentimento que traz paz pra ninguém. Ela te tira do prumo, deixa seu coração acelerado e suas mãos suadas. Paixão e medo caminham lado a lado. O medo também te tira do prumo, deixa seu coração acelerado e suas mãos suadas. Uma pessoa apaixonada quer o outro tanto tanto tanto que tem medo de perder. Ainda que ela não se dê conta disso, o medo de perder existe quando se está apaixonado. A paixão não traz paz. É um sentimento passageiro, perturbador. Arrasa corações adolescentes, mas é vista com muito cuidado pelos mais experientes no assunto. A sensação de paz, ao contrário do que muita gente imagina, não é uma sensação morna, neutra ou de que nada acontece. Ao contrário. As coisas acontecem, mas elas andam no ritmo certo. Não tem nenhum Deus-nos-acuda, o mundo não vai acabar amanhã e, se for, não há nada que alguém possa fazer (portanto, nada de afobação!).

Paz é uma sensação de que (como alguém já disse antes) a direção é mais importante que a velocidade – e uma ligeira desconfiança de que a direção está certa. Paz é quando o mundo não precisa parar pra você descer, pois você pode descer a qualquer momento e tem total controle da situação. Paz é ter a cabeça vazia diante de uma estrada que não tem fim. Paz é colocar sua cabeça no travesseiro à noite e dormir com a certeza de que você não enganou ninguém, não mentiu pra conseguir nenhuma vantagem ou usou de alguma forma ilícita pra conquistar alguma coisa ou alguém. Você tem a nítida sensação do que é paz quando você não busca a felicidade em cada coisa que faz ou em cada lugar que vai. Paz é quando você está na hora certa e no lugar certo simplesmente porque você acha que aquela hora e aquele lugar são certos pra você estar. Paz é querer aquela pessoa que também te quer e, se um dia uma das partes não quiser mais, tudo bem. Você também vai estar em paz pois não precisa de outra pessoa pra viver. Paz é estar feliz com sua própria companhia assistindo filme sexta-feira à noite. Paz é uma sensação interna de que sua busca não acabou mas que ela não acaba quando você encontra. Paz é não ter saudade do passado. Ou ter, mas viver em harmonia com ele. É não esperar pelo futuro como se ele existisse porque, na verdade, o futuro acaba no exato momento que começa. Paz é a sensação de que tudo vai dar certo e, se não der, você terá outra chance. Paz é acordar na beira do mar e não ter nada pra fazer. Ou ter. Paz é uma ave livre abrindo as asas no seu ombro. Paz é um cachorro te olhando nos olhos.

Paz é uma sensação de dever cumprido. De uma obra entregue no prazo. De fiz meu melhor. Paz é o final de um espetáculo de teatro depois que as cortinas se fecham. Paz é um par de olhinhos te olhando com admiração e respeito. Paz é uma sensação para poucos, mas aqueles que a experimentam não trocam por nenhuma outra sensação do mundo que possa se acabar num piscar de olhos. Se eu pudesse dar uma fórmula mágica da paz em um texto, eu daria. Mas, por enquanto só posso descrever um pouco do que estou conhecendo. Que não é quente, não é frio e muito menos morno. É leve, é novo, é seguro. Paixão, como eu ia dizendo, tem muito mais a ver com medo do que com amor. O amor é leve. É maduro. É terra firme de se pisar. A sensação de paz é um sentimento tão nobre quanto o amor, só que mais apurado. A paz é sublime.

12 outubro 2009

DICAS INFALÍVEIS PRA DAR TUDO ERRADO

Esses dias, vendo uma capa de revista masculina, notei uma coisa curiosa. A chamada na capa: Sete dicas poderosas para adiar seu casamento. Uau! É esse tipo de mensagem que passam para os homens em revistas masculinas? Não apenas: vejam peitos, bundas e úteros escancarados, mas também “adie seu casamento”. Curioso. A mensagem que nossa sociedade machista passa o tempo todo é: ter uma mulher só é ruim. Ter várias peladas é bom. Logo, pra que se comprometer? Adie o sofrimento!

É cada vez menos provável que homens e mulheres dêem certo juntos. O que se vê nas revistas femininas (tão machistas quanto as revistas masculinas) é: não sei quantas dicas infalíveis para manter seu casamento, não sei quantas dicas infalíveis para apimentar sua relação, não sei quantas dicas infalíveis para seduzir seu marido. Tem até mulher dando “curso de sedução” pras outras mulheres pra elas esquentarem seus casamentos e evitar que seus maridos procurem alguma coisa fora de casa. Enquanto as revistas masculinas e o resto da sociedade diz: veja fulana pelada, veja o útero da beltrana em nova posição, dicas para pegar todas na balada. E agora mais essa: dicas para adiar seu casamento.

Como se nós, mulheres, estivéssemos implorando aos homens: casem-se com a gente, por favor! Até concordo que isso exista ainda, sim. Em cidades do interior com menos de cem habitantes onde não chegou luz e televisão ainda, e em vilarejos pouco povoados no pólo norte, onde o clima extremamente frio atrapalha o desenvolvimento mental e intelectual. Fora isso, acredito que homem algum precise de dica pra adiar seu casamento. É bem mais simples, basta não se casar. Tem homem que se casa como se estivesse fazendo um grande favor pra mulher. Gente, como casamento ou qualquer relação pode dar certo assim? Um lado é educado pra pegar todas, nunca ser fiel, pagar por sexo sem compromisso e não querer casar. O outro lado é educado pra casar, ser uma boa esposa, seduzir o marido na cama por 50 anos pro casamento não acabar e, se acabar, a culpa é da mulher que não foi boa o suficiente pra segurar o cara. Ah, me poupem!

Nunca ouvi falar em curso pra homem aprender a ser mais paciente, mais tolerante, mais fiel ou ouvir melhor. Por que não tem na capa das revistas: Sete dicas poderosas para compreender melhor o que sua mulher está dizendo e como manter um diálogo coerente? Ou quem sabe: Sete dicas infalíveis de como se atrair por sua mulher ao invés de precisar comprar revistas de mulher pelada aos 30 anos de idade. Ou ainda: Saiba qual a idade ideal pra se casar, pra assumir responsabilidades e para crescer (crescer como ser humano e não a barriga de chope).

Dá pra perceber que há uma distância enorme entre o que a sociedade ensina pras mulheres e o que ensina pros homens?! A mulher mais velha que não se casou é encalhada. O homem mais velho que não se casou é um bon vivant (que provavelmente soube usar muito bem as sete dicas poderosas das revistas masculinas de como adiar seu casamento). Enquanto a gente viver numa sociedade machista (voltada única e exclusivamente pro pinto do homem), vamos viver dando cabeçadas por aí, e homens e mulheres nunca vão se entender. Acredito que o futuro da humanidade tem um só destino: os homens trancados no banheiro com revistas de mulher pelada e as mulheres fazendo curso de como seduzir marido dançando em volta do poste. Cada um no seu canto.

08 setembro 2009

EU NÃO VALHO A PENA

O primeiro erro que alguém pode cometer num relacionamento é se apaixonar pela outra pessoa antes de conhecê-la bem. A paixão é cega. Ou melhor, a paixão deixa as pessoas cegas. Elas começam a idealizar as outras e esse é o primeiro passo para um relacionamento dar errado. Quando a realidade dá as caras, ninguém é tão perfeito nem tão amor infinito quanto o outro imagina.

Mulher nenhuma dá conta de ser tão linda quanto o outro acha que ela é. Tão legal quanto o outro acha que ela é. Tão desgarrada e sem ciúme quanto o outro gostaria que ela fosse. Isso é coisa do começo, quando os homens ainda enxergam em nós, mulheres, a perfeição. E depois de alguns meses, somos obrigadas a corresponder às expectativas que eles criaram por conta própria. Cadê aquela mulher perfeita, linda, exuberante e legal que eu conheci? Não, querido, essa pessoa nunca existiu a não ser na sua imaginação.

Esse texto poderia ser parte da minha auto-biografia premeditada. Coisas que podemos escrever antes que elas aconteçam, pois inevitavelmente vão acontecer. Eu nunca consegui ser tão boa companhia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão culta quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão descolada quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão assídua na academia quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão dona da minha própria vida quanto pensavam que eu fosse. Nunca consegui ser tão bem resolvida quanto pensavam que eu fosse.

Talvez eu passe uma imagem errada de mim. Não sou metade da cabeça pensante que pareço, não tenho metade da empolgação pra malhar que já tive, não me viro tão bem sozinha quanto digo que me viro, não gosto tanto assim da minha própria companhia quanto eu digo por aí. Sou chata mesmo e tem hora que nem eu me agüento. Sou extremamente simples, caseira e cheia de manias estranhas (como ouvir Bruno e Marrone e dançar no meio da rua). Faço coisas “de homem” como trocar chuveiro, pintar a parede e consertar descarga em pleno feriado.

Já se apaixonaram por mim diversas vezes e, ainda assim, continuo solteira. Cada vez mais, quero que não se apaixonem por mim, afinal não vou ser metade da fantasia de alguém. Nem tento. Já vou dizendo logo quem sou, pois meu negócio é a realidade. Não tenho mais idade pra namoros adolescentes ou pra me interessar por viver uma ilusão. Todos que se apaixonaram por mim me fizeram sofrer no final. Queriam que eu fosse alguém que eu não sou pra eu corresponder a uma expectativa que não fui eu que criei.

Eu não pareço, nem de longe, a garota da camiseta molhada da revista. Eu não tenho vocação (nem bunda suficiente) pra andar de shortinho enfiado. Nunca vou colocar silicone e meus peitos vão continuar do jeito que eu gosto que eles sejam. Nunca vou achar normal traição e meu conceito de traição inclui trocar telefone (ou outro meio de contato) com uma mulher na balada. Nunca vou deixar solto quem eu amo. Minhas verdades mudam com o tempo, meus valores não. O que alguém acha de mim não vai determinar quem eu sou. Mesmo assim, não vou discordar quando alguém achar que eu não valho a pena. Eu valho. Eu valho a pena se tentarem me amar ao invés de se apaixonarem por mim.

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Gente, assisti uma entrevista no Jô ontem em que o psicoterapeuta Flávio Gikovate fala sobre paixão e amor (e porque acaba). Assistam, vale super a pena: http://www.youtube.com/watch?v=e_ZQBBhe3ZA

10 agosto 2009

SORRY, I CAN'T

Tem dias que dá preguiça mesmo de viver. A gente olha pra própria vidinha mais ou menos e se pergunta: o que, diabos, eu estou fazendo aqui? A resposta, a gente não consegue dar. Mas tem dias que simplesmente não dá. Não dá pra acreditar no futuro, no presente e desconfiamos até mesmo do passado. Tem horas que a gente parece estar no meio de um pesadelo (ou no meio de um sonho bom que nunca vai se realizar). Tem dias que não dá pra acreditar que a Xuxa usa hidratante Monange, que a Gisele Bündchen usa Pantene e que a Carolina Dieckmann tem dentes sensíveis. Chega uma hora que a realidade te espreme num canto, te dá um tapa na cara e te pergunta: o que é que você está fazendo aqui?

Não sei. Não sabemos. Procuramos pistas na ciência, na fé e na religião. Criamos Deus e deuses pra explicar o inexplicável. Buscamos pistas de que estamos no caminho certo ou, pelo menos, no melhor caminho. Acreditamos nos sinais, no destino e na contradição deles. Entendemos um pé-na-bunda como um sinal de que era pra ser assim. Entendemos um re-encontro como um plano traçado pelo destino. E assim vamos mexendo as peças de um jogo louco e sem explicação.

Aonde queremos chegar fazendo o que fazemos, sendo quem somos, acreditando no que acreditamos? E, afinal, quem somos? Em que acreditamos, se não acreditamos em nós mesmos? Desconstruímos sonhos ou os arremessamos ao acaso. Desacreditamos da sorte, do acaso ou do destino. Despedaçamos nossa auto-estima, nossa confiança na própria fé. Insultamos Deus e o diabo.

E assim, seguimos à própria sorte. Mandamos e desmandamos na nossa vida. A vida manda e desmanda na nossa sorte. Procuramos refúgio nos nossos vícios ocultos, ainda que esses vícios sejam academia e solidão. Fugimos do mundo pra fugir de nós mesmos. Fugimos de nós mesmos para fugir do mundo. Tem dias que simplesmente não dá. Não dá pra rir de piada sem graça, não dá pra agüentar a chatice alheia (já basta a nossa própria), não dá pra gostar de comer rúcula (quem inventou essa porra?). Chamem de TPM, de crise existencial ou o diabo. Tem dias que só uma enorme barra de chocolte com ovomaltine te entende. Desculpa, mas tem dias que não dá pra brincar de faz-de-conta. Não posso. Hoje, não.

23 julho 2009

AMOR, TATUAGENS, ADESIVOS E A LUCIANA


Estou eu saindo da academia, feliz, quando vejo uma moto parada. Horrível. Não entendo nada de moto não, mas de feio e bonito, eu entendo. E era horrível. Pra piorar a feiúra da pobre coitada da moto, havia nela um adesivo com letras garrafais onde se lia: LUCIANA. Deduzi logo de cara que o dono da moto é mesmo apaixonado por essa Luciana. Pobre Luciana! Foi arrumar um homem com tamanho mau-gosto.

Eu não deixaria namorado meu tatuar meu nome nele. Não acharia graça nenhuma se ele colocasse um adesivo gigante com meu nome onde quer que fosse. Não vejo romantismo nenhum em pichações com declarações de amor e nomes dentro de corações. Mas, quer saber?! Senti uma pontinha de inveja da Luciana. Luciana tem um namorado barango com uma moto velha e um puta mau-gosto, mas que não tem vergonha de mostrar pros outros que ele tem namorada. Luciana.

Tem homem que tem medo de compromisso. Tem homem que tira a aliança pra sair à noite e se passar por solteiro. Tem homem que começa a namorar mas continua sendo solteiro pras peguetis dele, pois ele sequer dará alguma pista. Tem homem que começa e termina namoro e continua prospectando novas interações por onde passa. Aqueles que fazem declaração pública de amor são bregas, Wandos ou jogadores de futebol. Falar de amor é brega. Expor que você ama é brega multiplicado por vinte. E tatuar nomes em partes do corpo só sendo pagodeiro mesmo.

Mas nós, mulheres, precisamos disso. De provas concretas e palpáveis de que somos amadas. Gostamos de ouvir declarações de amor, gostamos de receber cartões, gostamos de serenatas (tá, isso não existe mais e ninguém nunca fez uma serenata pra mim, mas a idéia me agrada), simplesmente gostamos de demonstrações públicas de afeto. A gente gosta de saber que o cara com quem a gente divide a vida não se importa de mostrar pro mundo que ele tem “dona”, de colocar nele a plaquinha de “ocupado”.

Demonstração pública de afeto não tem nada a ver com expor sua vida ou seus amores. Ninguém precisa saber se vocês brigaram ou tiveram uma noite maravilhosa. Ninguém precisa saber quais são seus problemas, se ela tem ciúme ou se ele não liga quando diz que vai ligar. Não to falando de expor a intimidade ou fazer um reality show da vida. Mas para nós, mulheres, seres carentes de amor que somos, as pistas palpáveis são fundamentais. A gente quer ver o Orkut do namorado com o status de “namorando”, a gente quer que ele coloque foto nossa no MSN, a gente quer frases, palavras, cartas e declarações.

Quando a gente ama, quer mostrar pro mundo que amar pode dar certo. Na minha ingênua cabecinha, só uma pessoa totalmente envolvida e livre de qualquer intenção com outra pessoa, pode expor publicamente que encontrou alguém – seja no Orkut, no MSN ou na moto - e que o posto de namorada não está mais disponível. Não sou a favor de tatuagem com nome de namorada, mas isso é só um gosto pessoal. Não sou a favor de motos ou adesivos e isso também é apenas um gosto pessoal. Pode me chamar de louca. Mas, pra mim, amor tem a ver com exclusividade, com abrir mão de todo resto e (por que não?) com tatuagens, adesivos e outras formas de comunicação. Felizes as Lucianas.

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Queridos, obrigada pelos e-mails fofos e carinhosos como sempre. Muito bom saber que, de alguma forma, eu ajudo a formar opiniões e cabeças pensantes nessa vida!

Ah, e a comunidade no orkut com quase 600 pessoas!!! Tchau, morri pra sempre!!!!!!!

09 julho 2009

A MINHA DOR

“Smile though your heart is aching”.
(Charlie Chaplin)

Minha dor, guardo comigo. Aprendi a ser assim desde muito nova ainda. Você pode me olhar e não fazer a mínima idéia do que se passa aqui dentro. Você pode achar que estou feliz ou que acabei de ganhar na mega-sena quando na verdade acabei de perder uma pessoa que amava. Choro quando escrevo e escrevo quando quero chorar. Minha história ninguém conhece. Minhas agonias, meus amores perdidos, meus desencontros com o meu próprio mundo. Guardo comigo.

Não sei se isso é bom ou ruim. Tem gente que diz que falar ajuda a “colocar pra fora o que te faz mal”. Como vomitar em alguém. Despejar um balde de lixo na cabeça de alguém que não tem nada com isso. Não gosto dessa idéia. Sou meio homem nessas horas. Prefiro entrar na minha caverna, ficar muda sem falar com ninguém e resolver o assunto na minha cabeça. Coisas que aprendi numa cidade pequena onde as pessoas precisam viver de aparência. Estar, a todo momento, mostrando que está tudo bem, que a vida é boa, que o amor é lindo, que ninguém tem problemas em casa. Aprendi muito cedo a disfarçar minha dor.

Hoje não aceito qualquer coisa. Já aceitei demais. Não tenho que aceitar mais nada que alguém queira me impor sem meu consentimento. Aceitei calada as mazelas da vida, que desciam arranhando goela abaixo. Não aceito mais nada. Desculpe, não posso mais. Dói. Fere. Corta. Mas depois cicatriza. E toda cicatriz é uma pele mais forte. Mais resistente. Menos sensível. Segundo a Wikipédia, a cicatrização alivia a dor do corte, pois a pele se fecha novamente e só fica a marca do machucado. Concordo. Alivia a dor e depois fica a marca do que foi machucado.

Não aceito que me julguem sem me conhecer. Não aceito que me conheçam pelo meu sorriso ou pela falta dele. Se eu te contar minha vida, ouça sem me interromper. Não me dê conselhos, pois o que você terá ouvido são apenas histórias e não sentimentos. Demonstre compaixão, mas jamais tenha dó de mim. Não vou me fazer de vítima, muito menos assumir uma culpa que não for minha.

Não me diga onde errei. Eu sei. Conheço meus acertos mais louváveis e meus erros mais repulsivos. Se der errado, vivo meu luto de novo. Não me importo. Vai doer. Vai ferir. Vai cicatrizar e formar uma casquinha que depois sai só de passar a mão de leve como quem toca um mosquito do corpo. Bem ou mal, minha história me fez ser quem sou. Viveria cada segundo de novo como se fosse uma despedida. Talvez eu cometesse os mesmos erros. Talvez eu cometesse outros erros. Mas jamais passaria impune até aqui. Cada um sabe da sua história e só isso importa. Por isso, guardo comigo minha dor, minhas agonias e meus pesadelos mais tenebrosos. Divido as alegrias, as conquistas e os sonhos mais altos. Escrevo sobre o que eu sinto. Escrevo como uma forma de despejar meu lixo na cabeça de alguém. Acho mais limpo e igualmente purificador. Escrevo porque dor não cabe no papel – ou eu não saberia explicar. E dessa forma, minha dor continua só minha. Guardo comigo.

Foto: olhares.com

02 junho 2009

NUA E CRUA


Eu queria ser famosa. Estampar as capas das revistas com minha felicidade instantânea e dizer que estou ótima depois de uma separação traumática. Queria ir pro Big Brother e fazer melhores amigos em uma semana. Queria dizer que amo com um mês de namoro. Queria que, quando alguém me chamasse de gostosa, isso fosse um elogio ao meu caráter e não um “eu te comeria se você me desse mole”. É provável que eu fosse mais feliz assim.

Mas eu sou tradicional. Sou convencional, apesar de não ser normal. Se eu me corto, eu sangro. Se bato o dedo no pé da mesa, dói. Sou uma pessoa comum. Acredito no até que a morte nos separe e também no eterno enquanto dure. Acredito que, se eu sou capaz de ser fiel, alguém mais pode ser. Acredito que eu não sou uma laranja, mas preciso da minha outra metade pra me sentir inteira. Valorizo as pequenas atitudes, assim como condeno pequenas mancadas. Sou rancorosa, guardo por anos uma coisa que me magoou de verdade. Sei perdoar. Passo por cima dos erros pra ficar junto das pessoas que eu gosto. Tenho meus limites. O primeiro deles é meu amor-próprio. Perdôo uma vez, porque errar é humano. Perdôo duas porque o ser humano é estúpido às vezes. Mas não posso viver perdoando porque isso seria incompetência minha.

Acredito que as pessoas aprendem com os próprios erros e com o tempo. Acredito também que quem traiu uma vez e foi perdoado vai trair de novo. Acredito que aquelas pessoas que vivem falando mal dos outros vão falar mal de você com esses outros. Acredito que as pessoas só mudam por vontade própria e nunca pelo pedido de outra pessoa. Acredito que tudo que eu acredito hoje vai mudar com o tempo. E que, no futuro, talvez, eu acredite em menos coisas. Ou em nada mais.

Nunca vendi meu corpo, nem nunca sequer considerei essa possibilidade. Eu sei exatamente o tipo de homem que sai com puta. E esse tipo me dá náusea. Nunca precisei experimentar drogas pra pertencer a nenhum grupo. Me dou bem com todo tipo de gente e as pessoas costumam gostar de mim apesar do que eu sou. Tenho verdadeira repulsa por homem mulherengo. Detesto aquele tipinho “caminhoneiro” (que fala pra esposa que tem uma em cada ponto, mas ela é a única que ele ama). Detesto mulher corna que se explica pras pessoas “mas ele me ama”. Sexo com outras pessoas só é perdoado quando é o homem que faz. Detesto homem machista. Detesto o tipinho que vai pra farra enquanto a mulher tonta espera em casa. Detesto mulher tonta.

Eu queria ser famosa pra fingir que não sinto dor. Pra fingir que sou perfeita na capa das revistas masculinas. Pra fingir que não preciso fingir. Queria ser famosa pra ser uma fruta e não uma cabeça que pensa. Mas escrever nunca deu dinheiro, nem capa de revista, nem melhores amigos no Big Brother. Escrever é pra pessoas de quinta como eu, que não vão fazer seu primeiro milhão vendendo o que tem no meio das pernas pra adolescentes de 30 anos de idade. Queria ser famosa pra experimentar uma vida que, dizem por aí, é melhor que a minha. Queria ser famosa pra ver se eu conseguiria ser eu.

25 maio 2009

PECULIARIDADES

Belo Horizonte é a única cidade no mundo onde homem corre de mulher. Pra bem longe. Funciona da seguinte forma: uma cidadã dá dois passos em direção a um cidadão belo-horizontino. E ele dá dois passos na direção contrária. Feia ou bonita. Alta ou baixa. Gorda ou magra. Não interessa. Eles simplesmente não estão a fim de você. Essa é a dura realidade daquelas que estão solteiras em Belo Horizonte. Nem experimente paquerar um cidadão nessa cidade. Ele a fará se sentir a pior das criaturas. Cruzeirenses ou Atleticanos. Pobres ou ricos. Feios ou bonitos. Eles se acham as última bolachas do pacote. E não são.

Numa cidade com 35 mulheres pra cada homem (minha estatística!), esses infelizes se acham na condição de escolher o cruzamento da cara da Gisele Bundchën com a bunda da Juliana Paes. E, enquanto eles esperam suas musas, se acham no direito de destratar ou ignorar as pobres mortais da capital mineira. Eles não são gays. Gays sabem tratar muito bem uma mulher. Mas, casos que tenho visto por aí colocam em dúvida a masculinidade desses cidadãos. Tenho uma amiga que buscava e levava o cara em casa, pagava motel e ele se achava no direito de dar end nela. Homem que trata mal mulher é o fim da picada.

Em contrapartida, as mulheres de Belo Horizonte ficaram mal-acostumadas. No sentido exato da palavra. Acostumadas com o pior mesmo. Elas aturam homens da pior qualidade. Ligam pra caras que dão end nelas, racham conta de cinco reais, pegam homens que pegam dois ônibus pra chegar na casa delas, se enrolam com caras que têm namorada, pegam homens a pé e se sujeitam a buscar e levar o cara lá na puta-que-pariu. E a lista não pára por aí. Ainda tem homem malcriado. Homem que desliga o celular no final de semana. Homem que aparece na sua casa com revista de mulher pelada debaixo do braço. Homem que liga de madrugada depois que viu que não ia pegar nada na noite. Homem que escreve “gostoza”. (Jesus, me abana!) Homem que chega com bafo de cerveja. Homem que não te ajuda a carregar uma sacola pesada. Homem que chama amiga pra tomarem vinho a sós na casa dele. E ainda tem aquele que canta sua melhor amiga. É!!! Pensa que to exagerando?

No tempo dos nossos avós, era diferente. Os homens eram verdadeiros cavalheiros. Mandavam flores. Abriam e fechavam a porta do carro. Não deixavam as mulheres fazer nenhum esforço físico. As mulheres eram tratadas como princesas. Hoje, as mulheres se sujeitam a tudo pra arrumar um marido. A mulher quis se igualar ao homem e acha que, para isso deve beber cerveja no gargalo, sentar de perna aberta, arrotar alto e dormir com um homem diferente em cada noite. Tomaram o caminho errado. A mulher precisou se rebaixar pra se igualar ao homem. Deixaram de ser as princesas que merecem ser tratadas como tais e começaram a assumir o papel que elas mesmas cobiçaram um dia: rachar conta de cinco reais, pagar motel, buscar e levar homem em casa. Ótimos exemplos de como a mulher se igualou ao homem.

Em Belo Horizonte, esse papel que a mulher assumiu se tornou tão forte que os homens pararam de fazer qualquer esforço. Deixaram de ser os caçadores para se tornarem as caças. Aqui, são as mulheres que têm que seduzir o tempo todo. São elas que paqueram, que ligam, que pedem telefone, que dão em cima. E os caras? Meros observadores, frouxos, sem atitude, pois eles não sabem se colocar no papel que as mulheres deixaram pra eles: o de escolher.

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P.S.: Esse texto não é uma obra de ficção. É apenas uma compilação de confissões trocadas em mesa de bar por amigas finas, que adoram champanhe e tiveram que aturar esses malas! Amigas, estou solidária à causa!

11 maio 2009

INIMIGO OCULTO

Seus verdadeiros amigos são aqueles que não vão sumir porque você está namorando e não vai mais pra balada com eles. Seus verdadeiros amigos não vão te criticar porque seu carro não toca o último dj do momento. Seus verdadeiros amigos não vão questionar seu gosto musical desatualizado porque você está por fora do que está rolando na night. Seus verdadeiros amigos não vão se preocupar mais com o modelo do seu celular do que com seu caráter. Seus verdadeiros amigos não vão mudar de melhores amigos a cada estação do ano.

Seus verdadeiros amigos não gostam mais ou menos de você porque você bebe ou não. Seus verdadeiros amigos nunca vão te oferecer drogas - lícitas ou não. Seus verdadeiros amigos nunca te metem em fria. Seus verdadeiros amigos vão querer sair com você de carro importado ou de kombi. Seus verdadeiros amigos não cancelam um compromisso na última hora com você só porque apareceu um programa mais interessante na mesma hora. Seus verdadeiros amigos não te chamam pra fazer algo apenas porque ninguém mais quis ir. Seus verdadeiros amigos não esperam você pedir um favor duas vezes. Seus verdadeiros amigos fazem você não se sentir culpada por precisar pedir um favor. Seus verdadeiros amigos vão se sentir felizes por ajudar. Seus verdadeiros amigos não tentam decidir sua vida. Seus verdadeiros amigos não te dão conselhos, não te julgam, mas sempre te ouvem. Seus verdadeiros amigos não ficam perguntando se você está feliz ou triste pra te apresentarem soluções mágicas.

Amigos de verdade não são perfeitos. Mas são completos. Amigos de verdade não são amigos pela metade. Não existem meios amigos. Amigos de verdade são aqueles que te dizem sim, te dizem não, mas que nunca te deixam sem resposta. Nunca vão te deixar na mão. Amigos de verdade são aqueles com quem você pode contar em dia de chuva ou em dia de sol na piscina do seu prédio. Que não trocam sua amizade por um amigo mais rico, mais bem-sucedido ou que tenha uma piscina maior. Seus verdadeiros amigos não têm todas as respostas. Não são donos da verdade nem mestres da sabedoria. Seus verdadeiros amigos não vão criticar seus gostos, seus hábitos ou seus valores. Não vão achar um defeito em tudo que você compra, gosta ou faz. Seus verdadeiros amigos não vão falar que você é brega porque você comprou alguma coisa no shopping popular. Seus verdadeiros amigos não vão secretamente frequentar o mesmo shopping popular que você terça-feira à tarde. Seus verdadeiros amigos não vão destratar seus outros amigos que não têm dinheiro e puxar o saco daqueles que têm. Seus verdadeiros amigos não comem linguiça e arrotam caviar.

Amigos de verdade podem te decepcionar. Podem errar. Podem nem sempre falar a coisa certa. Eles podem nem sempre ter o melhor conselho, a melhor palavra, a melhor saída. Mas eles sempre têm o melhor ombro, o melhor sorriso e, principalmente, a melhor intenção. Amigos de verdade estão presentes na noite com champanhe e na noite sem dinheiro. Amigos de verdade não são parte da sua família, não assinaram nenhum contrato com você, mas escolheram você com todos os seus defeitos pra dividir as alegrias e as tristezas. Seus verdadeiros amigos conhecem seu ponto fraco, mas jamais usariam isso contra você. Seus verdadeiros amigos conhecem de perto seus defeitos mais ardidos, mas não ficam apontando o dedo na sua cara. Seus verdadeiros amigos gostam de você apesar de tudo que você é.

01 maio 2009

DO QUE NEM EU ENTENDO

Vivemos esperando. Vivemos nos frustrando. Vivemos nos frustrando porque vivemos esperando. Vivemos olhando para o futuro e criando expectativas de que vamos encontrar a felicidade em um lugar que ainda não chegamos. A tal felicidade está sempre no pote de ouro no final do arco-íris que não chega nunca. A felicidade está no dinheiro que eu não tenho, no corpo que eu nunca vou ter, no carro que eu não dirijo, no amor da minha vida que é o amor da vida de outra. Mas e quando a gente consegue o corpo que a gente queria, o emprego dos sonhos, o amor pra vida inteira? Pra onde vai a felicidade que nunca chega? Por que é que a gente está sempre achando que falta alguma coisa pra ser feliz, mas essa alguma coisa está sempre naquilo que a gente não tem?

O ser humano quer aquilo que ele não pode ter. Ouvi isso esses dias e concordo totalmente. A gente vive na eterna busca para permanecer vivo. Estamos sempre atrás de algo que está sempre distante. Criamos expectativas irreais. Criamos modelos de felicidade baseados em um padrão ideal. Buscamos a felicidade na perfeição. O melhor emprego, o melhor casamento, a melhor família. A gente tem que ser bem-sucedido, a gente tem que casar e ter filhos antes dos 30, a gente tem que ter filhos. Falsos modelos de sucesso criados pela sociedade e por nós mesmos. Sucesso é ter um emprego milionário, mesmo que você abra mão da sua vida pra ganhar dinheiro (tenho uma amiga morando num lugar onde ela não conhece ninguém, acorda às 5h20 da manhã pra trabalhar, volta pra casa às 23h20, trabalha de segunda a segunda, não namora há dois anos, mas ta fazendo seu pé-de-meia). Sucesso é ter um casamento por 30 anos, mesmo que você durma no sofá há 23. Sucesso é ter se casado antes dos 30 mesmo que você tenha se casado com um pangaré qualquer pra contar pras suas amigas que você encontrou o homem da sua vida. Sucesso é ter filhos mesmo que você não tenha a mínima vocação pra maternidade e que não tenha um pingo de paciência com crianças. Sucesso é uma palavra criada pelo ser humano pra definir uma coisa qualquer que você precisa ter ou ser, que nem você mesmo sabe se queria ter tido ou sido.

A gente se frustra porque o final do arco-íris nunca chega. A gente se frustra porque mesmo com o melhor emprego, a melhor família, o melhor casamento, os melhores amigos, os melhores tudo, não nos consideramos felizes. E continuamos achando que a felicidade está naquilo que não temos. Felicidade é a nossa busca interna. Que nunca tem fim. Sucesso é um rótulo criado pela sociedade, pela mídia ou por qualquer outro nome que se queira dar para conceitos que são enfiados nas nossas cabeças desde pequenos, feito uma lavagem cerebral. Felicidade e sucesso são caminhos que nem sempre se cruzam.

Largamos nossas carreiras de músico, bailarina, ator, pintor, porque isso não dá dinheiro. Largamos nossos sonhos, nossas vocações, aquilo que realmente sabemos fazer, para fazer uma faculdade de direito, de engenharia, de medicina porque é isso que aprendemos que dá dinheiro e sustento na vida. Não nos casamos aos 18 porque somos muito novas, e nos precipitamos em ser certeira aos 35 porque já passou da hora. Qual é essa maldita hora? Qual é essa infeliz fórmula da felicidade? Quem escreveu as regras do sucesso? Eu vou ser infeliz se aos 30 não tiver achado o homem da minha vida? Se eu nunca quiser ter filhos. Se eu for morar na praia. Se eu virar hippie. Se eu não ganhar dinheiro, mas fizer aquilo que eu gosto. Eu vou ser uma pessoa pior pra quem? Pra mim mesma ou pro resto do mundo? Ter sucesso de verdade é ser feliz do seu jeito.

12 março 2009

NÃO ME INTERESSA


Não me impressiono com cifras, títulos ou promessas. Não acredito em palavra dita ou escrita. Acredito em atitudes, somente. Palavras, eu já tenho. Nasci com esse dom. Posso te contar minha vida inteira e, ainda assim, você não vai saber nada de mim. Quer me conhecer lendo meus textos? Nem tente. Eu não conseguiria descrever um décimo de tudo que eu penso mesmo que eu soubesse todas as palavra do mundo.

Não reconheço um homem meu tipo à distância. O homem meu tipo vai muito além de um cara bonito qualquer que cruza meu caminho. Não sou do tipo que precisa ser paquerada pra aumentar minha auto-estima. Isso eu já tenho de sobra. Me amo desde os horríveis dedos dos pés aos bem tratados fios de cabelo. Uso xampus de 90 reais. Me cuido como se eu fosse uma princesa. E exijo ser tratada como tal.

Não preciso dar golpe do baú, golpe da barriga ou golpe da periquita louca. Tem muita mulher se dando bem dando pro homem certo, mas eu prefiro me dar bem do meu jeito. Vim ao mundo a passeio. Não pretendo construir nenhum império nem ficar aqui por muito tempo. Cuido de duas calopsitas que são as coisas mais importantes na minha vida. Todo resto é bobagem. Pode ficar com meu carro, meu dinheiro, minhas roupas. Só preciso dos meus documentos pra eu lembrar quem sou. Como se eles, os documentos, pudessem me dizer.

Nunca seria política. Não sei agradar ninguém dizendo algo que não penso. Ou que não é. Tento dar bons exemplos. Tenho consciência de que sou responsável por tudo que escrevo uma vez que deixo alguém ler. Falo palavrão na hora certa. Xingo na hora errada. Escrevo tudo que vem à minha cabeça sem roteiro, sem pensar se vão gostar ou não. Escrevo tudo que penso. Não penso em tudo que escrevo. Escrevo porque é a forma de organizar meus pensamentos. Escrevo porque é a forma de eu me conhecer mais e de você me conhecer menos.

Não me importo em ser clichê, nem em repetir isso a cada texto. Não me importo de escrever mil vezes sobre o mesmo tema. O amor é clichê e inesgotável. Impossível não ser igual a tudo que já foi dito. Impossível não dizer de novo a mesma coisa. Ouvi na rádio esses dias uma bandinha “emo” cantar que “pra existir história, tem que existir verdade”. Clichê? É. Mas é a maior verdade que ouvi nos últimos tempos.

Não existe mesmo história sem verdade. Mentira tem perna curta, já diz o ditado. E eu digo mais: meias-verdades andam de perna-de-pau. Uma hora, inevitavelmente, elas vão cair. Toda palavra dita se torna mentira sem uma atitude coerente. A verdade está na coerência, na transparência e nas atitudes. Acredito nisso. Acredito em calopsitas, xampus caros e atitudes coerentes. Todo resto é bobagem.

02 março 2009

HAPPY-HOUR DE VERDADE


A nova moda dos grandes centros agora é freqüentar consultórios psiquiátricos, psicólogos, analistas e afins. Isso mesmo! Stress está na moda. Cismaram que é legal trabalhar 16 horas por dia. Super moderno dizer pros amigos que trabalha “horrores” e que não tem tempo nem no final de semana pra tomar uma cervejinha. Super da hora virar noite no escritório. Top do top da tendência é ser workaholic (viciado em trabalho, mas é mais chique falar em inglês, óbvio). Agora, se você quiser ficar por dentro mesmo dessa nova tendência, freqüente um psiquiatra, um analista e um psicólogo porque você está estressado com tanto trabalho. Tome remédios para dormir. Vários. A lista eu já conheço de cor e salteado, conversa de churrasco de domingo e happy-hour (desde quando sair com chefe mala é “happy”???). Conheço todos de nome. Só de nome.

Eu acredito mesmo é no equilíbrio. No trabalho na hora do trabalho e no descanso na hora do descanso. Acredito em descansar os pés num bom par de chinelos na beira da praia no final de semana. Acredito em sair do escritório e dar uma malhada pra relaxar o corpo e a mente. Acredito em uma boa caminhada de manhã cedo com devida disposição pra acordar e não olheiras gigantes por não ter dormido à noite. Acredito em uma alimentação saudável e não sanduíche de fast-food na hora do rush. Acredito que quem inventou esse monte de palavras em inglês no meio da nossa língua tem mais é que se fuder. E acredito que, se esse mundo estressado não me rodeasse, eu não ia mandar ninguém se fuder.

É errado agora gostar de piscina, de mar ou de sol? Qual é?! Saí na rua outro dia, no meio da semana, de camiseta de alça com um tiquinho de marca de biquíni e as pessoas me olhavam como se eu estivesse cometendo uma infração muito grave. Está errado que eu não passo o sábado e domingo inteiro trabalhando também? É errado que minha pele não é branco-escritório? É contra a lei que eu queira me cuidar? Que eu queira ter um tempo livre pra mim? Que eu possa fazer as unhas, pintar cabelo, depilar minhas pernas?

Bonito é ter olheiras, bunda murcha e cor de doente. Bonito é ter a perna peluda, as unhas cheias de cutículas e a raiz do cabelo com cinco dedos de outra cor. Bonito é não ter tempo pra nada. Não ter tempo pra ver os amigos, a família que mora longe e o namorado. Bonito é se entupir de remédios, só falar de trabalho quando encontra tempo pra não trabalhar. Bonito é ter casa na praia e não poder ir. É chegar em casa e ver que seu filho, de repente, envelheceu sete anos. Bonito é ver que o tempo está passando e você não está ficando mais novo.

Vou soar clichê como sempre, mas o que se leva dessa vida é a vida que se leva, como alguém - tão clichê quanto eu - disse uma vez. Deletei todas minhas amigas malas que ficam com o raio do MSN no ocupado 24 horas por dia, que trabalham até meia-noite sete dias por semana e que se acham mais importantes que o resto do mundo por trabalhar 16 horas por dia. Deve haver um meio-termo, não é possível! Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Literalmente. Nem tanto à São Paulo, nem tanto à Bahia. Nem tanto ao escritório, nem tanto à praia. Equilíbrio. Essa é a palavra chave. Esse é o único remédio que conheço.

15 janeiro 2009

AMOR PRA VIDA INTEIRA

Sou do signo de Áries. Fogo. Sou direta. Franca. E exijo o mesmo das pessoas. Não gosto de meias-palavras ou meias-verdades. Só uso meias brancas. Mas nunca passo o reveillon de branco. Sou do avesso. Talvez eu seja, sim, o oposto daquilo que você espera de mim. Sou hiperativa ao extremo. Gosto de todos os bichos. Não gosto de muitas pessoas. Minha vida é desalinhada. Dirijo como um homem e choro como uma criança. Talvez eu mereça mais que isso.

Talvez meu jeito estúpido de amar as pessoas ao meu redor não seja suficiente. Talvez eu precise começar do zero e aprender a amar. Aprender a viver como se diz no manual. O colégio de freiras não serviu pra muita coisa na minha vida. Minha família nunca me ouviu de verdade. Por isso, sou temperamental. Aprendi com as aves. Não gosto de ser incomodada sob o risco de eu te dar uma bicada e arrancar seu dedo fora. Gosto da liberdade, mas adoro companhia. Adoro minhas pernas encostando nas suas na hora de dormir.

Admiro as araras azuis. Aprendi no Discovery Channel que elas passam a vida inteira com o mesmo companheiro. São livres. Ninguém, nem nenhuma lei, obriga ninguém a ficar junto por mais tempo do que o amor consegue fazê-lo. Eu acredito nisso. No amor livre. No amor enquanto houver amor. No respeito, na cumplicidade, na transparência.

Por não saber o que quero da vida, vivo fazendo o que não quero. Por não saber amar, vivo levando na cara. Por amar demais, vivo sonhando. Por não acreditar nos sonhos, vivo me ferrando. Por me ferrar sempre, vivo me fechando. E por me fechar demais, vivo sem amor. Vivo com poucos amigos, poucas cifras e poucos CDs. Vivo com alguma poesia, uma caixa de lápis de cera e duas calopsitas. Vivo sem sorte no jogo e apostando no amor.

Não quero amor de fim de noite. Não quero amor de uma noite só. Não tenho mais idade - nem saco - pra micareta. Não sei mais paquerar ou fazer joguinho de “não te quero só pra você me querer”. Não preciso que me queiram pra massagear meu ego. Tenho foco. Sou mulher de um homem só. Não preciso de conversinha com ex-rolos no Messenger porque sei bem o que eu quero. Não preciso de homem pra massagear meu ego. Não preciso testar meu poder de sedução mantendo possíveis casos amorosos na internet. Não preciso de ninguém pra me dizer o quanto sou linda, gostosa e inteligente. Pra isso, tenho espelho, academia, papel e caneta. Não preciso usar meu corpo ou muito menos minhas palavras pra conquistar alguém. Pra isso, tenho sentimentos que falam por mim.

Acredito no amor, apesar de o amor não acreditar em mim. Valorizo as pequenas coisas, como o chocolate no fim da tarde e o almoço no meio do dia. Valorizo a boa intenção. A boa fé. Acredito nas palavras do coração pra fora. E nos sentimentos do coração pra dentro. Acredito em tudo que vem de dentro da alma. Acredito no agora e desconfio – muito – do futuro. Desejo o bem pra quase todas as pessoas que conheço. Acredito no desejo. Acredito na vontade que faz acontecer. Acredito que tudo que queremos de verdade acontece. Não acredito em signos, cartas e tarô. Respeito todas as crenças. Acredito no amor que dura uma vida inteira. Desconfio do amor que dura uma noite. E respeito todas as formas de amar.

08 janeiro 2009

ETERNO ENQUANTO DURE


Todos os dias, milhares de casamentos chegam ao fim. Todos os dias, milhares de pessoas se casam. Então, por que tanta gente ainda se casa, se tem tanta gente se separando? Por que insistimos em acreditar no “pra sempre” que sempre acaba? Seria a vitória da esperança sobre a experiência? Sim, seria. Quando se trata de amor, somos mais insistentes. Lutamos até o fim por quem a gente ama. Agarramos com unhas e dentes. Acreditamos no futuro enquanto mal conseguimos viver em paz com o presente. Fazemos planos. Construímos castelos no ar. Vivemos sonhos que não são nossos. Compartilhamos a vida. Mais que isso, compartilhamos a idéia de um futuro juntos.

Esperança. Se não fosse ela, ninguém se casaria mais. Se não acreditássemos que sim, pode dar certo, não haveria porque arriscar. Nós apostamos nossas fichas no amor. Acreditamos em contos-de-fadas, nos filmes com finais felizes e na novela das nove. Assistimos ao “Em nome do amor” e ao “Vai dar namoro”. Choramos quando Leonardo DiCaprio faz glub glub e se afoga nas gélidas águas do oceano junto com o Titanic. No fundo – sem trocadilho – acreditamos que amar pode dar certo.

Não nos casamos porque pensamos que vamos nos separar um dia. Muito pelo contrário. Casamos porque acreditamos que vamos ficar juntos e felizes para sempre. Temos o pé no chão e a cabeça nas nuvens. Temos o coração em outras mãos que não são nossas. Decidimos a nossa vida, o nosso final de semana. Nós. Pensamento conjunto pra uma vida a dois. Abrimos mãos das possibilidades infinitas de noites perdidas porque acreditamos ter encontrado a pessoa certa. A única. Aquela. Temos o genro que nossas mães pediram a Deus ou simplesmente temos o cara com quem gostamos de passar nossas tardes de domingo. Temos alguém que nos leva ao hospital segunda-feira de manhã e que sai pra comprar xarope sábado no meio da chuva. Temos um ao outro e talvez isso baste.

Amor não tem que ser pra sempre. Como já disse o poeta, que seja eterno enquanto dure. Mas não acreditamos que o amor tenha hora marcada pra acontecer. Que saiba a hora exata de chegar e de ir embora. De repente, amamos. De repente, não amamos mais. Assim mesmo, sem aviso prévio, sem data marcada, sem carta na porta. Amamos por diversas razões que desconhecemos. Deixamos de amar por outras que sabemos menos ainda. Desconhecemos razões.

Amamos simplesmente porque queremos estar juntos. Amamos porque gostamos do cheiro, do calor, do beijo. Amamos porque gostamos de assistir tevê sábado à noite deitados no sofá. Amamos porque não sabemos cozinhar. Amamos porque gostamos de ir ao supermercado juntos. Amamos porque não temos nada em comum um com o outro. Amamos porque dividimos o mesmo edredom. Amamos porque gostamos das nossas escovas de dente na mesma pia. Amamos porque gostamos do jeito dele deixar todas as coisas em seus devidos lugares. Amamos porque não entendemos a letra dele. Amamos porque não sabemos amar. Amar é acreditar. Acreditar que pode dar certo. Acreditar em um futuro juntos apesar de. Amar é não ter a mínima pista ou garantia de que pode mesmo dar certo. Amar é um álbum de figurinhas.